sábado, 30 de junho de 2012

As heranças de Maniqueu


As heranças de Maniqueu

Parte I

Maniqueu era meu pai
Diana minha mãe
Mas a ela nos referíamos Di
Não por uma questão de prefixo
Mas por um complemento ao meu pai

Ambos estão mortos

Meu pai me deixou uma herança
Vasta herança
Cria que seu filho, eu
Pudesse seguir seus passos
Deixou-me a empresa
Deixou-me a casa
Deixou-me o carro, os ativos
Os passivos, os patrimônios
Os ouros, as joias, as obras de arte
Deixou-me a educação.

Na carta, no testamento
Ele diz:
“Meu filho,
Sabes o quanto me orgulho de ti,
Sabes que correspondeste com maior força
Todos os investimentos,
Todo meu suor
E minha esperança.

Meu filho,
Obrigado por seres um orgulho a mim,
A sua mãe,
Ao nome de tua família.
Não poderia Deus nos conceder
Alma tão gentil e geniosa.

Meu filho,
Sejas feliz.
Continue como és.”

Meu pobre pai,
Não sabe o quanto o que eu sou
Já veio antes de sua carta.
Sua herança mais fundamental
Não foram os contáveis.
São sim os não mensuráveis,
Abstráticos,
Freudianos,
Junguianos,
Não-Reichianos.
A Herança de meu Pai,
Aquela que importa,
É minha História.

Parte II

Toda minha infância
Todas minhas brincadeiras
Meus cafés da manhã
Minhas tarefas escolares
Toda uma supervisão
Um bem querer
Um motivo
Um propósito.

“És predestinado”

Não acredito em destino.

Talvez o mesmo trauma
Que cria o tédio
Criou meu asco ao concreto futuro.

Não era uma proibição ao sim
Era uma ideia
Uma suposição
Um olhar de negação
Era a retina, o cristalino
De meus pais
Cubisticamente formados
Que enrijeciam
Ainda mais retângulos
Tanto mais agudos
Finos, pontiagudos
O sinal da reprovação.

Mas nada importava
Um dia, no futuro,
Poderia haver recompensa
Era um marketing teológico
Muito bem feito
Organizado e mentalizado:
“A Recompensa”.

Parte III

Do meu lado, a vontade
Do outro, a repressão
Por que fazer?
Pra que?
Propósitos, propósitos...

A raiz já fincara
Já estava crescendo
Forte como a vegetação desértica
Resistente, áspera, dolorida
“Não rela, dói”
Não era preciso
Não queria
Não havia porque
Duvidar
Questionar
Supor

Verdades estavam ditas
E instintivamente vinha
Aquilo que me doía aos nervos:
“Não”
Suave, delicado
Não era imperativo
Era Não galanteativo
Sugestivo, doce

“Por que entristecer
Meu pai, minha mãe?
O que ganhar com isso?”

Fazia da minha diferença
A minha superioridade.

Era melhor porque ouvia
Ouvia terceiros
É, pais são terceiros,
Coadjuvantes de nossa história
O ator principal estava morto
De overdose

E abria mão,
E abria mão
E permaneciam as pernas
E o coração
Fechados

Parte IV

Eis que morrem
Eis que da morte surge a liberdade
Eis que do estrume surge a flor
Que da guerra surge a paz
Só há o bem com o mal do lado
Eis vida de comparações

Eis um não saber fazer
Eis o medo de agir
Eis algumas constatações
Eis minha herança
Eis Maniqueu me vigiando

Por que quero
Porque quis
Por que desejo
Porque não sei

Metade de mim é desejo
A outra é culpa

E meu pai morre
E leva a chave
E deixa a cela fechada
Selada

E maldito seja seu ouro
Ouro é mole
Ouro nada firme fica

E lá estou eu
Divãzando
Divagando
Crendo, esperando
E perguntando:
“Onde erraste, meu pai?”

A vida teria sido tão mais fácil
Se sem comparação ficasse

Se só me apresentasse seu bem

Ai de ti
Serás julgado pelo crime
Pelo crime de mostrar
A possibilidade


Gustavo Mendes - 1ª Versão em 30/6/2012

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