domingo, 1 de julho de 2012

Pupilas Gustativas


Pupilas Gustativas

É daquelas coisas que mais me prendem a atenção: uma situação corriqueira, meramente idiota, mas que em minha cabeça era traduzido de maneira tanto quanto distinta. A minha paranóia particular era tão mais pública (de público) do que eu mesmo teria vontade. Ao passo que eu desejava ser o ponto de fuga dos outros e sê-lo o meu próprio. Afrontar-me com diferentes situações possuía dois predicados possíveis: um que depende do verbo e outro que depende do sujeito. Subir diariamente à noite no ônibus que me leva para casa causava essa estranheza que eu sempre chamei de biológica, mas que podia ser física também. A química e a minha sinapse, que fazia eu pensar em tudo isso. Traduzia aquilo que eu sempre via. Era um corredor infinito, daqueles que são tudo que fazem parte de nossa vida. Normalmente, não tanto, mas também não muito diferente, um campo de concentração daqueles “ditos” nazistas. E ainda existem aqueles que dizem que isso não existe mais. Chamo-os de hipócritas, afinal, da hipocrisia deriva tanto mesmo! Eu ia caminhando normalmente naquele corredor metálico, de aço frio e retorcido, sofrendo um incessante ataque visual. A sinestesia era tremenda. Aquela sensação de estar caminhando rumo a algum lugar, junto daquela de enfrentar um grande paredão de olhos humanos, possivelmente hipócritas famintos fulminantes, entretanto olhares, daqueles que eu precisava entender que não se transformariam por minha própria causa. Deveria eu mudar, e é justamente isso que eu penso quando piso naquele chão oxidável (de corrosivo). Mas a mudança em mim de tão sutil, era tão progressiva. Naqueles tempos, antes de mudar-me, costumava comer pastel num lugar perto de minha casa. Àquela ocasião, meu estado mudo era tão gritante que se fazia ouvir a cada ser humano ali presente. Era tão, tão nada, que até mesmo a pessoa que me trazia os pastéis engordurados, não tinha a delicada vontade de desejar “Boa Noite”. Não lembro se cheguei a sentir falta. Mas as minhas paralisias sociais, tamanhas que eram, faziam-me não sentir falta daquele cumprimento humano tão útil. As vezes, nem mesmo o mais fácil dos argumentos públicos despertava a falta em mim. Eu sempre, em decorrente de estar vivendo, fiz o possível para compreender estes instintos que se apossavam de mim. Todavia, havia aqueles dias que passaram a se tornar comuns, em que eu não conseguia assistir à toda aquela explosão social que acontecia ao meu redor. Não duvido que a razão de eu ter saído do lugar que habitava tivesse sido não a vontade de me tornar uma pessoa melhor, mais “amiga”, mas o anseio contorcido de não ser o “menor”. Nunca desejei o ser, por isso que minha justificativa foi das mais imorais possíveis. Mas a imoralidade é tão questionável, enfim. O tempo foi passando (hoje vejo que foi rápido) e aquela pessoa que me trazia os pastéis começou a se tornar constante em minha vida. Não pelos pastéis engordurados. Nem porque a via todos os dias. Mas por causa dela ser, possivelmente, o oposto da minha moralidade. A antítese era tão contraditória que me fez entender como eu estava sendo desleal comigo mesmo naquelas simples questões da vida, e, o quanto era verdade tudo o que estava recebendo dos outros. Da primeira vez, não percebi. Da segunda, comecei a me incomodar. Das outras vezes, fui me sufocando. Entrar no ônibus se tornou um tanto quanto mortal pra mim. Porque, de todas as vezes que encontrava com meu completo oposto (a moralidade, a pessoa que me entregava os pastéis), eu entrava em choque. Gostaria de entender porque esta pessoa, que não era nada em comum comigo, nem os olhos, nem o futuro, me fazia ficar perplexo diante de tudo que já cheguei a julgar. A julgava, mais uma vez. Pela última vez. Não foram tantas as vezes que tive a oportunidade de acusar e ser absolvido de maneira tão marcante. As poucas vezes me bastaram. De todas as vezes que olhava ao meu redor, aquelas eram as que mais me doíam. Das poucas vezes que fui encontrando com a pessoa dos pastéis engordurados (ou dentro do carro, ou quando voltava do trabalho, ou, simplesmente, quando comia mais pastéis), eu estava outro. Aos poucos eu fui mudando. Aos poucos eu fui deixando de ser menor, para ser medíocre. Se no começo a minha vontade era capacitada de ser imoral, creio que à minha vida agora eu transformo em imoral tudo aquilo que não me agrada. Saí de um patamar reduzido, de mudo. Para um palanque altivo, de ensurdecedor. Fazia calar todas aquelas imperfeições que fazia crer imperfeitas. Criei um mundo só meu. Quis tanto crescer, que comecei a engolir todo um mundo ao meu redor. Sempre acreditei na redenção dos homens. Eu precisava de uma, para poder enxergar que não se faz vida de olhares. Eu que lutava para mostrar o interior, em desvalor do visual, agora, usava o meu contra-argumento em meu próprio benefício. Havia me transformado, sim. Havia mudado, sim. Talvez mudei-me tanto, mas tanto, que a metástase da mudança atacou meus olhos. Se antes tinha a cabeça recolhida por estar calado. Hoje merecia ter a cabeça recolhida por ter virado um monstro, iguais àqueles que lotam a vida de todos. Mas, quando subi no ônibus naquela noite, mais uma vez erguia a cabeça e olhava para aquele corredor, rodeado de lugares vagos e ocupados. Os olhares da pessoa que me servia os pastéis! Ah, me fizeram perder o chão e abaixar a cabeça. Senti que estava sendo envolvido por um gigantesco casulo metálico, do mesmo aço retorcido e oxidável. Um enorme contêiner de onde havia duas entradas de gás tóxico. Aquele gás dos meus verbos, e aquele gás do meu sujeito. Aquela estrutura física que me fez sentir, cheirar, retorcer, me contorcer por inteiro por conta de tudo que estava sendo vomitado pra cima de mim. Sim, vomitava os pastéis que havia comido servido por aquelas mãos morais demais para eu poder entender. E o casulo, eu sentia, que a cada minuto fechava mais. O aço metálico se polia cada vez mais os gases que entravam, se espelhavam ainda mais com o vomito que caía. Poliram-se tanto que a única coisa que se via, para cada canto que eu olhava, era mim mesmo. Me vi sozinho em meu próprio mundo. Estar sozinho dentro do meu íntimo foi o pior de todos os pesadelos possíveis e suportados. A minha monstruosidade era tamanha que não respeitava nem mesmo meu sofrimento, e, mais, o meu reflexo perante a vida que passei. Entendi naquele momento o que era a minha vida perante os outros. Senti medo, muito medo, como nunca havia sentido antes. Mas ainda assim, estava desesperado. Precisava sair daquele lugar fechado, eu precisava sentar em um banco do ônibus antes que alguém pegasse, ou, pior, que não sobrasse lugar algum, a não ser aquele do lado da pessoa que me servia os pastéis. Eu sei que aqueles olhares que me olhavam continham a pureza que eu sempre quis encontrar nos olhos de outras pessoas. Mas não encontrava porque procurava. Porque esquecia que antes de merecer um olhar de sinceridade, eu precisava primeiro ser sincero comigo mesmo. Eu precisava me olhar nos espelhos e compreender o que era eu. O que fazia perante o mundo. Perante as pessoas. E, mais, entender porque apenas a pessoa dos pastéis era quem podia passar por todas essas barreiras. Há perguntas em nossa vida que permanecem sem respostas por todo o sempre, ou, que todas têm uma resposta, basta olhar melhor e entender que aquilo era nossa resposta. Eu não cheguei a chorar perante meu desespero. Eu queria era sentar e olhar a pessoa dos pastéis pelas costas. Talvez me sentisse melhor julgando-a mais uma vez. Mas, não conseguia. Simplesmente não julgava. Apenas olhava para suas costas. Nunca havia olhado para suas costas. Me senti isolado. Ela se levantou, o ponto havia chegado. O meu era o próximo. Não me olhou nunca mais. Não a julguei nunca mais. Andei perante aquele corredor, de aço frio e retorcido mais uma vez. Tive medo dos espelhos que me amedrontavam. Tentei entender porque a pessoa dos pastéis não me olhou. Queria entender porque era apenas quando ela me olhava que eu a julgava, e, porque agora ela não quis me olhar. Me desarmou de uma forma tão incomensurável. As pessoas não me olhavam. Na realidade, nunca me olharam. Nunca passei de um simples comum. Nunca passei daquele mesmo que queria ser diferente para não ser o menor. Nunca fui grande o suficiente para poder virar o rosto e não olhar, e não julgar. Afinal, o julgamento cabe aos fracos. A redenção, aos grandes.

Gustavo Mendes 

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