Pupilas Gustativas
É daquelas coisas que mais me prendem a atenção: uma
situação corriqueira, meramente idiota, mas que em minha cabeça era traduzido
de maneira tanto quanto distinta. A minha paranóia particular era tão mais pública
(de público) do que eu mesmo teria vontade. Ao passo que eu desejava ser o
ponto de fuga dos outros e sê-lo o meu próprio. Afrontar-me com diferentes
situações possuía dois predicados possíveis: um que depende do verbo e outro
que depende do sujeito. Subir diariamente à noite no ônibus que me leva para
casa causava essa estranheza que eu sempre chamei de biológica, mas que podia
ser física também. A química e a minha sinapse, que fazia eu pensar em tudo
isso. Traduzia aquilo que eu sempre via. Era um corredor infinito, daqueles que
são tudo que fazem parte de nossa vida. Normalmente, não tanto, mas também não
muito diferente, um campo de concentração daqueles “ditos” nazistas. E ainda
existem aqueles que dizem que isso não existe mais. Chamo-os de hipócritas,
afinal, da hipocrisia deriva tanto mesmo! Eu ia caminhando normalmente naquele
corredor metálico, de aço frio e retorcido, sofrendo um incessante ataque
visual. A sinestesia era tremenda. Aquela sensação de estar caminhando rumo a
algum lugar, junto daquela de enfrentar um grande paredão de olhos humanos,
possivelmente hipócritas famintos fulminantes, entretanto olhares, daqueles que
eu precisava entender que não se transformariam por minha própria causa.
Deveria eu mudar, e é justamente isso que eu penso quando piso naquele chão
oxidável (de corrosivo). Mas a mudança em mim de tão sutil, era tão
progressiva. Naqueles tempos, antes de mudar-me, costumava comer pastel num
lugar perto de minha casa. Àquela ocasião, meu estado mudo era tão gritante que
se fazia ouvir a cada ser humano ali presente. Era tão, tão nada, que até mesmo
a pessoa que me trazia os pastéis engordurados, não tinha a delicada vontade de
desejar “Boa Noite”. Não lembro se cheguei a sentir falta. Mas as minhas
paralisias sociais, tamanhas que eram, faziam-me não sentir falta daquele
cumprimento humano tão útil. As vezes, nem mesmo o mais fácil dos argumentos
públicos despertava a falta em mim. Eu sempre, em decorrente de estar vivendo,
fiz o possível para compreender estes instintos que se apossavam de mim.
Todavia, havia aqueles dias que passaram a se tornar comuns, em que eu não
conseguia assistir à toda aquela explosão social que acontecia ao meu redor.
Não duvido que a razão de eu ter saído do lugar que habitava tivesse sido não a
vontade de me tornar uma pessoa melhor, mais “amiga”, mas o anseio contorcido
de não ser o “menor”. Nunca desejei o ser, por isso que minha justificativa foi
das mais imorais possíveis. Mas a imoralidade é tão questionável, enfim. O
tempo foi passando (hoje vejo que foi rápido) e aquela pessoa que me trazia os
pastéis começou a se tornar constante em minha vida. Não pelos pastéis
engordurados. Nem porque a via todos os dias. Mas por causa dela ser,
possivelmente, o oposto da minha moralidade. A antítese era tão contraditória
que me fez entender como eu estava sendo desleal comigo mesmo naquelas simples
questões da vida, e, o quanto era verdade tudo o que estava recebendo dos
outros. Da primeira vez, não percebi. Da segunda, comecei a me incomodar. Das outras
vezes, fui me sufocando. Entrar no ônibus se tornou um tanto quanto mortal pra
mim. Porque, de todas as vezes que encontrava com meu completo oposto (a
moralidade, a pessoa que me entregava os pastéis), eu entrava em choque.
Gostaria de entender porque esta pessoa, que não era nada em comum comigo, nem
os olhos, nem o futuro, me fazia ficar perplexo diante de tudo que já cheguei a
julgar. A julgava, mais uma vez. Pela última vez. Não foram tantas as vezes que
tive a oportunidade de acusar e ser absolvido de maneira tão marcante. As
poucas vezes me bastaram. De todas as vezes que olhava ao meu redor, aquelas
eram as que mais me doíam. Das poucas vezes que fui encontrando com a pessoa
dos pastéis engordurados (ou dentro do carro, ou quando voltava do trabalho,
ou, simplesmente, quando comia mais pastéis), eu estava outro. Aos poucos eu
fui mudando. Aos poucos eu fui deixando de ser menor, para ser medíocre. Se no
começo a minha vontade era capacitada de ser imoral, creio que à minha vida
agora eu transformo em imoral tudo aquilo que não me agrada. Saí de um patamar
reduzido, de mudo. Para um palanque altivo, de ensurdecedor. Fazia calar todas
aquelas imperfeições que fazia crer imperfeitas. Criei um mundo só meu. Quis
tanto crescer, que comecei a engolir todo um mundo ao meu redor. Sempre
acreditei na redenção dos homens. Eu precisava de uma, para poder enxergar que
não se faz vida de olhares. Eu que lutava para mostrar o interior, em desvalor
do visual, agora, usava o meu contra-argumento em meu próprio benefício. Havia
me transformado, sim. Havia mudado, sim. Talvez mudei-me tanto, mas tanto, que
a metástase da mudança atacou meus olhos. Se antes tinha a cabeça recolhida por
estar calado. Hoje merecia ter a cabeça recolhida por ter virado um monstro, iguais
àqueles que lotam a vida de todos. Mas, quando subi no ônibus naquela noite,
mais uma vez erguia a cabeça e olhava para aquele corredor, rodeado de lugares
vagos e ocupados. Os olhares da pessoa que me servia os pastéis! Ah, me fizeram
perder o chão e abaixar a cabeça. Senti que estava sendo envolvido por um
gigantesco casulo metálico, do mesmo aço retorcido e oxidável. Um enorme
contêiner de onde havia duas entradas de gás tóxico. Aquele gás dos meus
verbos, e aquele gás do meu sujeito. Aquela estrutura física que me fez sentir,
cheirar, retorcer, me contorcer por inteiro por conta de tudo que estava sendo
vomitado pra cima de mim. Sim, vomitava os pastéis que havia comido servido por
aquelas mãos morais demais para eu poder entender. E o casulo, eu sentia, que a
cada minuto fechava mais. O aço metálico se polia cada vez mais os gases que
entravam, se espelhavam ainda mais com o vomito que caía. Poliram-se tanto que
a única coisa que se via, para cada canto que eu olhava, era mim mesmo. Me vi
sozinho em meu próprio mundo. Estar sozinho dentro do meu íntimo foi o pior de
todos os pesadelos possíveis e suportados. A minha monstruosidade era tamanha
que não respeitava nem mesmo meu sofrimento, e, mais, o meu reflexo perante a
vida que passei. Entendi naquele momento o que era a minha vida perante os
outros. Senti medo, muito medo, como nunca havia sentido antes. Mas ainda
assim, estava desesperado. Precisava sair daquele lugar fechado, eu precisava
sentar em um banco do ônibus antes que alguém pegasse, ou, pior, que não
sobrasse lugar algum, a não ser aquele do lado da pessoa que me servia os
pastéis. Eu sei que aqueles olhares que me olhavam continham a pureza que eu
sempre quis encontrar nos olhos de outras pessoas. Mas não encontrava porque
procurava. Porque esquecia que antes de merecer um olhar de sinceridade, eu
precisava primeiro ser sincero comigo mesmo. Eu precisava me olhar nos espelhos
e compreender o que era eu. O que fazia perante o mundo. Perante as pessoas. E,
mais, entender porque apenas a pessoa dos pastéis era quem podia passar por
todas essas barreiras. Há perguntas em nossa vida que permanecem sem respostas
por todo o sempre, ou, que todas têm uma resposta, basta olhar melhor e
entender que aquilo era nossa resposta. Eu não cheguei a chorar perante meu
desespero. Eu queria era sentar e olhar a pessoa dos pastéis pelas costas.
Talvez me sentisse melhor julgando-a mais uma vez. Mas, não conseguia.
Simplesmente não julgava. Apenas olhava para suas costas. Nunca havia olhado
para suas costas. Me senti isolado. Ela se levantou, o ponto havia chegado. O
meu era o próximo. Não me olhou nunca mais. Não a julguei nunca mais. Andei
perante aquele corredor, de aço frio e retorcido mais uma vez. Tive medo dos
espelhos que me amedrontavam. Tentei entender porque a pessoa dos pastéis não
me olhou. Queria entender porque era apenas quando ela me olhava que eu a
julgava, e, porque agora ela não quis me olhar. Me desarmou de uma forma tão
incomensurável. As pessoas não me olhavam. Na realidade, nunca me olharam.
Nunca passei de um simples comum. Nunca passei daquele mesmo que queria ser
diferente para não ser o menor. Nunca fui grande o suficiente para poder virar
o rosto e não olhar, e não julgar. Afinal, o julgamento cabe aos fracos. A
redenção, aos grandes.
Gustavo
Mendes
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