segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vocação


Àquele dia
O mundo soube o que era maktub
Maktub existe?
Acredito em aptidão
Se acredito? Acredito em:
Capacidade de verter o negativo ao positivo
De crer para si uma vida sacerdotal
- não, não aquela teísta –
Será que foi escolha? Será que houve um propósito?
Nunca!, mas nunca! saberemos
Tornaria então nossa vida menor?
Pelo contrário,
Se optas dedicar uma vida a alguém
Optas pela nobreza de sangue vermelho
Sangue do ser humano-comum
Da realidade!
Sabes que tiveras oportunidade
E te indignas perante a falta da mesma
É vocação? És vocação?
Ode a uma obrigação humana?
Vivemos para valorizar a nobreza?
Infelizmente...
Antes pudessem ser todos iguais a ti
Antes pudessem ouvir nobreza
Ver nobreza
Sentir nobreza
Antes a nobreza ser comum, para não ser idolatrada
Antes o fim de se valorizar pessoas boas
Antes fossemos como a ti
Antes... Antes...
Só temos o depois hoje
E esse depois será construído por sorrisos
Satisfações, saciedade, alívio
Vocação? Sua? Especial por isso?
Que seja!
Existes, o mundo está melhor
E optas pelo mundo, pelas pessoas
Sê exemplo!
Sê um médico!
Sê mesmo!
Por vocação, por maktub, pelas pessoas!
Salve vidas, e ganhará milhares
E não viverás sozinho, nunca!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Heroismo

Meus herois estão preocupados
- ou será desespero? -
recorrem a deus
entram em templos pedindo socorro
ajoelham
e rezam uma prece rápida
- mas eficaz -
para aquelas imagens
que estão de olhos vedados...
para aquelas ideias
que estão cegas....

Meus herois rezam
e eu não acredito em mais nada
eu não tenho preces
eu apenas tinha crenças...
eu esperava e penitenciava...

O mundo verdadeiro foi destruído
e será reconstruído por um martelo...
que meus heróis, ainda rezando,
não sabem usar...
eu,
muito menos!

domingo, 1 de julho de 2012

O Quadro das Estatísticas do Século XXI

O Quadro das Estatísticas do Século XXI

O rosto manchado, ressecado, quebradiço,
O cabelo despenteado, febril, sem tratos,
O nariz que escorre, a coriza sem fim,
O olhar abatido, sem eu, sem o quê.

Como seria possível à nossa mentalidade
Refletir as nossas três realidades,
A discrepância, a desproporcionabilidade,
Quando à verdade é levada
Em consequências matemáticas,
Reais, Racionais, Inteiras, Naturais...
Naturais como o estomago vazio.

Se, somente se,
Uma reação se libertasse,
Do âmago,
Produzir-te-ia o choro
- lágrimas com sangue,
lágrimas com suor,
lágrimas hipertônicas,
lágrimas com terra,
lágrimas ao expoente infinitesimal -
E revelaria o sujo e completo
Descaso à humanidade.

Por que sempre nos desligamos,
Abortamos o feito perfeito,
Assassinamos a realidade?
Porque sempre a facilidade fala.
Porque o estomago está cheio.
Porque a moralidade agora pode te falar.
Porque o culto do eu pode te convencer.
Porque a verdade pode ser calada.
Porque criam na impotência a distância,
Num mundo que se reduz ao zero.

Ainda se desliga, ainda sabe a verdade,
A ninguém mais importa a verdade.
O fato se altera, o fato vira a mentira.
O tédio da passividade atestado.
E ainda sabe, e sabe,
Porque repetem,
Por prazer? Por que?
Que a todo momento,
Alguém morre pelo
Esquecimento.

A necessidade da não reação.
Da impotência.
É a realidade da não reação.
Nada atinge. Nada conta. Nada consta.
Tudo se reduziu ao vazio.
Suas riquezas a se partilhar com ninguém.
E ainda esperam que a bomba se apague.
Sozinha.
E negligenciada.


Gustavo Mendes, em 1/7/2012, 2ª versão  

Pupilas Gustativas


Pupilas Gustativas

É daquelas coisas que mais me prendem a atenção: uma situação corriqueira, meramente idiota, mas que em minha cabeça era traduzido de maneira tanto quanto distinta. A minha paranóia particular era tão mais pública (de público) do que eu mesmo teria vontade. Ao passo que eu desejava ser o ponto de fuga dos outros e sê-lo o meu próprio. Afrontar-me com diferentes situações possuía dois predicados possíveis: um que depende do verbo e outro que depende do sujeito. Subir diariamente à noite no ônibus que me leva para casa causava essa estranheza que eu sempre chamei de biológica, mas que podia ser física também. A química e a minha sinapse, que fazia eu pensar em tudo isso. Traduzia aquilo que eu sempre via. Era um corredor infinito, daqueles que são tudo que fazem parte de nossa vida. Normalmente, não tanto, mas também não muito diferente, um campo de concentração daqueles “ditos” nazistas. E ainda existem aqueles que dizem que isso não existe mais. Chamo-os de hipócritas, afinal, da hipocrisia deriva tanto mesmo! Eu ia caminhando normalmente naquele corredor metálico, de aço frio e retorcido, sofrendo um incessante ataque visual. A sinestesia era tremenda. Aquela sensação de estar caminhando rumo a algum lugar, junto daquela de enfrentar um grande paredão de olhos humanos, possivelmente hipócritas famintos fulminantes, entretanto olhares, daqueles que eu precisava entender que não se transformariam por minha própria causa. Deveria eu mudar, e é justamente isso que eu penso quando piso naquele chão oxidável (de corrosivo). Mas a mudança em mim de tão sutil, era tão progressiva. Naqueles tempos, antes de mudar-me, costumava comer pastel num lugar perto de minha casa. Àquela ocasião, meu estado mudo era tão gritante que se fazia ouvir a cada ser humano ali presente. Era tão, tão nada, que até mesmo a pessoa que me trazia os pastéis engordurados, não tinha a delicada vontade de desejar “Boa Noite”. Não lembro se cheguei a sentir falta. Mas as minhas paralisias sociais, tamanhas que eram, faziam-me não sentir falta daquele cumprimento humano tão útil. As vezes, nem mesmo o mais fácil dos argumentos públicos despertava a falta em mim. Eu sempre, em decorrente de estar vivendo, fiz o possível para compreender estes instintos que se apossavam de mim. Todavia, havia aqueles dias que passaram a se tornar comuns, em que eu não conseguia assistir à toda aquela explosão social que acontecia ao meu redor. Não duvido que a razão de eu ter saído do lugar que habitava tivesse sido não a vontade de me tornar uma pessoa melhor, mais “amiga”, mas o anseio contorcido de não ser o “menor”. Nunca desejei o ser, por isso que minha justificativa foi das mais imorais possíveis. Mas a imoralidade é tão questionável, enfim. O tempo foi passando (hoje vejo que foi rápido) e aquela pessoa que me trazia os pastéis começou a se tornar constante em minha vida. Não pelos pastéis engordurados. Nem porque a via todos os dias. Mas por causa dela ser, possivelmente, o oposto da minha moralidade. A antítese era tão contraditória que me fez entender como eu estava sendo desleal comigo mesmo naquelas simples questões da vida, e, o quanto era verdade tudo o que estava recebendo dos outros. Da primeira vez, não percebi. Da segunda, comecei a me incomodar. Das outras vezes, fui me sufocando. Entrar no ônibus se tornou um tanto quanto mortal pra mim. Porque, de todas as vezes que encontrava com meu completo oposto (a moralidade, a pessoa que me entregava os pastéis), eu entrava em choque. Gostaria de entender porque esta pessoa, que não era nada em comum comigo, nem os olhos, nem o futuro, me fazia ficar perplexo diante de tudo que já cheguei a julgar. A julgava, mais uma vez. Pela última vez. Não foram tantas as vezes que tive a oportunidade de acusar e ser absolvido de maneira tão marcante. As poucas vezes me bastaram. De todas as vezes que olhava ao meu redor, aquelas eram as que mais me doíam. Das poucas vezes que fui encontrando com a pessoa dos pastéis engordurados (ou dentro do carro, ou quando voltava do trabalho, ou, simplesmente, quando comia mais pastéis), eu estava outro. Aos poucos eu fui mudando. Aos poucos eu fui deixando de ser menor, para ser medíocre. Se no começo a minha vontade era capacitada de ser imoral, creio que à minha vida agora eu transformo em imoral tudo aquilo que não me agrada. Saí de um patamar reduzido, de mudo. Para um palanque altivo, de ensurdecedor. Fazia calar todas aquelas imperfeições que fazia crer imperfeitas. Criei um mundo só meu. Quis tanto crescer, que comecei a engolir todo um mundo ao meu redor. Sempre acreditei na redenção dos homens. Eu precisava de uma, para poder enxergar que não se faz vida de olhares. Eu que lutava para mostrar o interior, em desvalor do visual, agora, usava o meu contra-argumento em meu próprio benefício. Havia me transformado, sim. Havia mudado, sim. Talvez mudei-me tanto, mas tanto, que a metástase da mudança atacou meus olhos. Se antes tinha a cabeça recolhida por estar calado. Hoje merecia ter a cabeça recolhida por ter virado um monstro, iguais àqueles que lotam a vida de todos. Mas, quando subi no ônibus naquela noite, mais uma vez erguia a cabeça e olhava para aquele corredor, rodeado de lugares vagos e ocupados. Os olhares da pessoa que me servia os pastéis! Ah, me fizeram perder o chão e abaixar a cabeça. Senti que estava sendo envolvido por um gigantesco casulo metálico, do mesmo aço retorcido e oxidável. Um enorme contêiner de onde havia duas entradas de gás tóxico. Aquele gás dos meus verbos, e aquele gás do meu sujeito. Aquela estrutura física que me fez sentir, cheirar, retorcer, me contorcer por inteiro por conta de tudo que estava sendo vomitado pra cima de mim. Sim, vomitava os pastéis que havia comido servido por aquelas mãos morais demais para eu poder entender. E o casulo, eu sentia, que a cada minuto fechava mais. O aço metálico se polia cada vez mais os gases que entravam, se espelhavam ainda mais com o vomito que caía. Poliram-se tanto que a única coisa que se via, para cada canto que eu olhava, era mim mesmo. Me vi sozinho em meu próprio mundo. Estar sozinho dentro do meu íntimo foi o pior de todos os pesadelos possíveis e suportados. A minha monstruosidade era tamanha que não respeitava nem mesmo meu sofrimento, e, mais, o meu reflexo perante a vida que passei. Entendi naquele momento o que era a minha vida perante os outros. Senti medo, muito medo, como nunca havia sentido antes. Mas ainda assim, estava desesperado. Precisava sair daquele lugar fechado, eu precisava sentar em um banco do ônibus antes que alguém pegasse, ou, pior, que não sobrasse lugar algum, a não ser aquele do lado da pessoa que me servia os pastéis. Eu sei que aqueles olhares que me olhavam continham a pureza que eu sempre quis encontrar nos olhos de outras pessoas. Mas não encontrava porque procurava. Porque esquecia que antes de merecer um olhar de sinceridade, eu precisava primeiro ser sincero comigo mesmo. Eu precisava me olhar nos espelhos e compreender o que era eu. O que fazia perante o mundo. Perante as pessoas. E, mais, entender porque apenas a pessoa dos pastéis era quem podia passar por todas essas barreiras. Há perguntas em nossa vida que permanecem sem respostas por todo o sempre, ou, que todas têm uma resposta, basta olhar melhor e entender que aquilo era nossa resposta. Eu não cheguei a chorar perante meu desespero. Eu queria era sentar e olhar a pessoa dos pastéis pelas costas. Talvez me sentisse melhor julgando-a mais uma vez. Mas, não conseguia. Simplesmente não julgava. Apenas olhava para suas costas. Nunca havia olhado para suas costas. Me senti isolado. Ela se levantou, o ponto havia chegado. O meu era o próximo. Não me olhou nunca mais. Não a julguei nunca mais. Andei perante aquele corredor, de aço frio e retorcido mais uma vez. Tive medo dos espelhos que me amedrontavam. Tentei entender porque a pessoa dos pastéis não me olhou. Queria entender porque era apenas quando ela me olhava que eu a julgava, e, porque agora ela não quis me olhar. Me desarmou de uma forma tão incomensurável. As pessoas não me olhavam. Na realidade, nunca me olharam. Nunca passei de um simples comum. Nunca passei daquele mesmo que queria ser diferente para não ser o menor. Nunca fui grande o suficiente para poder virar o rosto e não olhar, e não julgar. Afinal, o julgamento cabe aos fracos. A redenção, aos grandes.

Gustavo Mendes 

sábado, 30 de junho de 2012

As heranças de Maniqueu


As heranças de Maniqueu

Parte I

Maniqueu era meu pai
Diana minha mãe
Mas a ela nos referíamos Di
Não por uma questão de prefixo
Mas por um complemento ao meu pai

Ambos estão mortos

Meu pai me deixou uma herança
Vasta herança
Cria que seu filho, eu
Pudesse seguir seus passos
Deixou-me a empresa
Deixou-me a casa
Deixou-me o carro, os ativos
Os passivos, os patrimônios
Os ouros, as joias, as obras de arte
Deixou-me a educação.

Na carta, no testamento
Ele diz:
“Meu filho,
Sabes o quanto me orgulho de ti,
Sabes que correspondeste com maior força
Todos os investimentos,
Todo meu suor
E minha esperança.

Meu filho,
Obrigado por seres um orgulho a mim,
A sua mãe,
Ao nome de tua família.
Não poderia Deus nos conceder
Alma tão gentil e geniosa.

Meu filho,
Sejas feliz.
Continue como és.”

Meu pobre pai,
Não sabe o quanto o que eu sou
Já veio antes de sua carta.
Sua herança mais fundamental
Não foram os contáveis.
São sim os não mensuráveis,
Abstráticos,
Freudianos,
Junguianos,
Não-Reichianos.
A Herança de meu Pai,
Aquela que importa,
É minha História.

Parte II

Toda minha infância
Todas minhas brincadeiras
Meus cafés da manhã
Minhas tarefas escolares
Toda uma supervisão
Um bem querer
Um motivo
Um propósito.

“És predestinado”

Não acredito em destino.

Talvez o mesmo trauma
Que cria o tédio
Criou meu asco ao concreto futuro.

Não era uma proibição ao sim
Era uma ideia
Uma suposição
Um olhar de negação
Era a retina, o cristalino
De meus pais
Cubisticamente formados
Que enrijeciam
Ainda mais retângulos
Tanto mais agudos
Finos, pontiagudos
O sinal da reprovação.

Mas nada importava
Um dia, no futuro,
Poderia haver recompensa
Era um marketing teológico
Muito bem feito
Organizado e mentalizado:
“A Recompensa”.

Parte III

Do meu lado, a vontade
Do outro, a repressão
Por que fazer?
Pra que?
Propósitos, propósitos...

A raiz já fincara
Já estava crescendo
Forte como a vegetação desértica
Resistente, áspera, dolorida
“Não rela, dói”
Não era preciso
Não queria
Não havia porque
Duvidar
Questionar
Supor

Verdades estavam ditas
E instintivamente vinha
Aquilo que me doía aos nervos:
“Não”
Suave, delicado
Não era imperativo
Era Não galanteativo
Sugestivo, doce

“Por que entristecer
Meu pai, minha mãe?
O que ganhar com isso?”

Fazia da minha diferença
A minha superioridade.

Era melhor porque ouvia
Ouvia terceiros
É, pais são terceiros,
Coadjuvantes de nossa história
O ator principal estava morto
De overdose

E abria mão,
E abria mão
E permaneciam as pernas
E o coração
Fechados

Parte IV

Eis que morrem
Eis que da morte surge a liberdade
Eis que do estrume surge a flor
Que da guerra surge a paz
Só há o bem com o mal do lado
Eis vida de comparações

Eis um não saber fazer
Eis o medo de agir
Eis algumas constatações
Eis minha herança
Eis Maniqueu me vigiando

Por que quero
Porque quis
Por que desejo
Porque não sei

Metade de mim é desejo
A outra é culpa

E meu pai morre
E leva a chave
E deixa a cela fechada
Selada

E maldito seja seu ouro
Ouro é mole
Ouro nada firme fica

E lá estou eu
Divãzando
Divagando
Crendo, esperando
E perguntando:
“Onde erraste, meu pai?”

A vida teria sido tão mais fácil
Se sem comparação ficasse

Se só me apresentasse seu bem

Ai de ti
Serás julgado pelo crime
Pelo crime de mostrar
A possibilidade


Gustavo Mendes - 1ª Versão em 30/6/2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Prólogo - 28 de Junho, Ano 1


Prólogo
28 de Junho, Ano 1
            Já vinha de alguns anos uma Política do Governo Central visando a reocupação do campo. As cidades se tornaram enormes, com deficiências gigantescas, o que não se tornou algo fácil de ser resolvido. Assim, acabou sendo mais natural fixar novas pessoas nas zonas rurais do que atacar os imbróglios urbanos que vinham surgindo. A Política das Comunas Agrícolas funcionou e funciona muito bem. Ela já existia durante o século 20, mas era porcamente divulgada. Assim acabou se tornando um meio viável de aumentar a qualidade de vida de modo global. O número de pessoas na cidade começou a diminuir, enquanto que no campo aumentava. Obviamente que tal política vinha recheada de benesses: minibairros extremamente modernos, dotados de escola e hospital, e com fácil acesso por via terrestre ao grande centro urbano.
            Muitos jovens se interessaram por isso. Primeiro porque o local era de graça, e ainda por cima do Governo Central pagava para sua fixação na terra. Junto com a fixação, era necessário dispensar algumas horas de trabalhos semanais nas lavouras. Algo de total subsistência, para a Comuna e para a Cidade. Assim, como o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” aparentemente começou a vir junto a genética de novas crianças, era natural que se passando os anos, elas se interessassem por políticas similares.
            Dentre esses jovens ambientalistas estava Aya. Tinha seus 22 anos. Estudava numa Faculdade afastada do centro urbano, logo, se tornou mais do que interessante viver na Comuna. A sua era a Comuna 20S (número 20, da região Sul). Sempre fora uma menina determinada, ou pela educação de seus pais, ou pelas situações em que teve que passar na escola. Tinha um cabelo longo e ondulado, ruiva original, levemente sardenta, com olhos azuis extremamente chamativos. Não era alta, um padrão de altura normal, e razoavelmente magra. Transformara-se numa mulher chamativa por ser original, diferentemente da criança, que era considerada feia por ser diferente. Nunca se interessou por namoros despretensiosos. Olhava os relacionamentos sob uma outra égide e talvez por causa disso sofria com risinhos voluntários sobre ainda estar sozinha, com vastos 22 anos, como diziam.
            Morava sozinha, por opção. Morar sozinho pagava menos, mas ao menos Aya tinha como estudar nas horas vagas, e podia descansar sem ouvir a voz de ninguém quando voltava da lavoura. Era uma casa simples, uns 40m² construídos: um quarto, uma sala estreitamente para dois ambientes, uma cozinha para 1 pessoa, e o banheiro. Não precisava além. E podia receber seus amigos, os poucos, quando havia necessidade. Por fora da casa, uma simplicidade espartana também. O desenho urbanístico da Comuna era minúsculo, justamente para impedir que se transformassem em minicidades. Era 1 rua única, horizontal Leste-Oeste. No extremo Leste, a Escola, no extremo Oeste, uma Clínica Médica, no centro, o maior prédio do local envolvendo a Administração Pública e a Polícia, e também a Estação de Trem. E as casinhas cresciam ao redor dessa única rua, que não eram, obviamente, rodeadas de carros ou placas de sinalização. Havia uma praça adequada também no centro da rua, em frente ao Grande Prédio dito acima. No lado oposto ao Prédio, o Portão da Comuna que levava as lavouras, com seus caminhos bastante retos e explicativos. E Aya morava no Setor Leste.
            Aya levantara cedo naquela sexta. Era véspera de sua folga na Comuna, e era seu último dia de aula do semestre. Era uma boa razão para levantar antes do horário, tomar um banho razoável, lavar o cabelo, preparar um café fraco, e ligar a Televisão para ouvir algumas notícias: saber se o Presidente havia morrido, se alguém explodiu uma Bomba Atômica, ou se mais uma Guerra Mundial havia começado. Todas as outras informações, pensava Aya, eram iguais, só mudavam as datas e em quem acontecia. Talvez por conta disso resolveu trocar o canal do jornal “Bom Dia!”, e ir músicas. Deu preferência para suas WorldMusic’s, difundidas em excesso nas últimas gerações. Ouvia enquanto colocava uma quantidade generosa de café em sua caneca com símbolo vegan, e preparava um lanche vegetariano. Sim, Aya também era vegetariana. Terminou seu café, terminou de se arrumar, e saiu de casa, fechando-a através da biometria.
            Era muito cedo ainda, mais do que o costume de Aya em sair para pegar o trem. O dia estava ainda se clareando todo, o vento ainda era fresco, e era possível ver o fim de alguns pontos luminosos no céu. Ela estava sabendo que um planeta, que ela não se lembrava de qual, estava nesses próximos dias com seu reflexo incidindo com grande intensidade na Terra. Reparou isso, mas não ficou se preocupando tanto. A cafeína começou a fazer efeito no seu organismo, e por isso começou a sentir aquela costumeira sensação de euforia pós-cafeína, e começou a pensar em milhões de coisas... Boas, sim. E se sentiu poderosa o suficiente para conseguir tudo.
            Observou à sua esquerda algumas casas, com as lavouras ao fundo. Estava neste período na obrigação de tomar conta da parte de hortaliças, que cresciam e morriam muito rapidamente, daí a necessidade de tomar conta de mais de 1 espécie de planta. Era comum nas Comunas que cada morador tomasse conta de 1 espécie por um período determinado de tempo. A ideia final é de que todos pudessem ter passado por todos os lugares produtivos. Aya pensou nas suas couves, e em prepara-las à noite com manteiga e alho.
            Continuou seguindo na única rua de sua Comuna até chegar ao Grande Prédio. A construção não era de fato grande, mas o era comparado as casas que haviam na Comuna. Eram apenas 2 andares, sendo que no 1º fica a Polícia, no 2º a Burocracia Estatal. No térreo havia um grande pátio, por causa da existência da Estação de Trem. O prédio era todo branco, semiespelhado externamente: espelhos eram intercalados com belas estruturas de concreto albino. Não haviam torres no telhado. Era um telhado reto, com gramíneas. No futuro, quem sabe, seria possível transformar o lugar num belo terraço, mas, atualmente, era impossível pensar nisso, por uma opção financeira. No grande pátio da estação, novamente, aquela decoração espartana: inexistente, porém, sabendo ser funcional. Algumas placas espalhadas e só. Aya confirmou o horário de seu trem: faltavam ainda 5minutos.
            Enquanto esperava os 5minutos acabarem, Aya ficou pensando no seus bizarros fins de semana. Ela nunca fizera muita questão de estar com alguém. Não era do seu feitio, e aprendera a se dar bem sozinha. Gostava disso. Mas ela também concordava que o homem é um animal social. Raramente, pensava, “se ve grandes coisas da humanidades feitas por apenas uma pessoa isoladamente”. Percebia Aya que algo podia ser melhorado, só não sabia o que. Não tinha culpa de ter se tornado uma pessoa fechada pelo que já passara na vida. Mas também, “as pessoas que vivem comigo hoje não tem culpa nisso”. E assim começou a condicionar algumas. Ela já tinha 22 anos, e não demoraria para estar formada. Depois de formada, possivelmente, resolveria voltar para a capital, San Remo, apesar de toda sua consciência adorar a vida em Comuna. Ir viver numa cidade que pretendia ser a “única cidade grande” do mundo era demasiada hipocrisia para ela. Mas, pensou, “a única opção vantajosa da Comuna é o salário”.
            O trem começou a chegar. Com suas incríveis velocidades, que chegavam a 300km/h para um transporte interurbano, conseguia ser mais do que eficiente. Aya passou seu cartão, entrou, e sentou na primeira poltrona que viu. O trem realmente era de qualidade. Por dentro todo estofado de cor azulada, por fora, uma estrutura cilíndrica branca o envolvia. Da Comuna até a Estação de sua Faculdade eram pouco mais de 20minutos. Deu tempo de ler mais um capítulo de um livro de felicidade instantânea.
            A Faculdade de Aya poderia facilmente se enquadrar como uma comuna. Era um vasto campo, com um prédio no centro dele, e varias casinhas adjacentes. A diferença é que sua estrutura era totalmente radial. Como estava chegando razoavelmente cedo para os padrões, era natural que todo o campus estivesse vazio.
            Ao chegar na estação, muito similar a estação de sua comuna, Aya, que estava muito acostumada com o trajeto e com as pessoas que estão envolvidas no meio do caminho, apenas estranhou um rapaz novo na estação, aparentemente um calouro, ou apenas perdido.
            - É calouro? – perguntou ela.
            - Ah, bom dia. Não, não sou calouro não. Eu... Eu apenas resolvi pegar o trem e parar aqui para conhecer o campus. Tinha ouvido falar que era legal, e como eu to com o dia de folga, resolvi passar aqui.
            - Ah... Entendi. Primeira vez então aqui? De onde você vem?
            - Venho da capital. Lá, você deve saber, não tem como fazer um campus dessa forma. Concreto em excesso... Você mora onde lá?
            - Na realidade não moro em San Remo. Sou da Comuna 20S. Comunas viraram lugar para estudantes morarem depois que o Governo passou a pagar para sairmos das cidades.
            - Ah, é... Eu nunca fui numa comuna também. Na realidade nunca fui em muito lugar.
            - Ahm... Quantos anos?
            - Eu? 20.
            - E é tão preso assim?
            - Preciso. Meus pais morreram e eu preciso tomar conta dos meus irmãos gêmeos mais novos. Não tem como eu fazer certas coisas, porque eles precisam de mim. Tive que abrir mão de faculdade e trabalhar para poder sustenta-los. Logo menos eles me chamaram de pai...
            - Ah... Que triste... Meus sentimentos.
            - Relaxa. Você se importa de me levar para conhecer esse lugar?
            - Claro, claro. Como você se chama mesmo? Meu nome é Aya.
            - Prazer. Sou Kayan.
            Ambos saíram do prédio da estação e resolveram ir ao prédio central da Faculdade. De lá partiam varias ruelas. Para facilitar conhecer o local, Aya sugeriu de irem até o mirante, que ficava foram do raio de construções ligadas do campus. Mas, ao menos, ela teria tempo de mostrar o lugar para o jovem, e poderia até conhece-lo melhor.
            - Talvez o mirante seja o melhor lugar para você ver tudo daqui.
            - Tudo bem, não me importo de andar mais.
            - Venha. Eu tenho aula daqui 40minutos. Tenho um tempo para te levar até lá.
            Os dois foram no sentindo sudeste (em relação ao prédio central). No caminho, nas poucas vezes que foram conversando, Aya fora se sentindo gostando do rapaz. É certo que se conheceram não faziam 5 minutos. Mas ela nutria aquela velha história de que poderia conhecer alguém legal em qualquer momento. Achou que Kayan poderia ser essa pessoa. Além de ser bonito, era simpático. O jovem era um pouco maior que ela. Cabelos bastante claros, pele bastante clara, e um olho cor de caramelo. Nunca vira alguém com cor nos olhos assim. Era uma característica bastante incomum, e só havia visto em fotos. Achou o conjunto todo harmônico, todo dourado, pensou. Em momento bastante fora de si, Aya se viu pensando que ter filhos com Kayan traria uma ótima certeza: seus filhos teriam uma pele extremamente clara.
            - Você trabalha em que?
            - Eu trabalho numa central de callcenter. Não exige muita especialidade, e eu não tenho tempo de me especializar. Faço uma jornada dupla, enquanto meus irmãos ficam integralmente na escola. E vai sendo assim, domingo a domingo. Você estuda aqui né?! Faz o que?
            - Estudo Engenharia Genética. Meu forte é na área de botânica. Mas a gente sempre conhece algumas outras áreas. Você tem uma cor de olho rara de se encontrar.
            Kayan ficou sem graça.
            - Ah... É. Meus pais também tinham olhos assim, e sempre brincaram com eles dizendo que eles eram parentes por causa disso. Eu e meus irmãos também acabamos tendo. Pena que eu não posso desfilar tanto ele assim.
            Aya soltou uma risada, que foi acompanhada pelo jovem.
            - Você não vai trabalhar hoje?
            - Um dos nossos chefes faleceu. Não gosto de velórios. Como tenho que acordar sempre muito cedo, por causa dos meus irmãos, tive tempo de vir aqui.
            - Ah, entendi.
            Continuaram andando, até que chegaram no mirante. Lembrava bastante um minarete. Uma altura próxima a um prédio de 6 andares. Apenas 1 elevador no térreo, que levava diretamente ao topo. Uma torre feita totalmente de predas. Diziam que fora feita no século 19. O elevador, obviamente, veio no século 21.
            - É aqui. – disse Aya, enquanto foram subindo.
            Na subida continuaram conversando. E Aya resolveu tomar uma de suas poucas iniciativas.
            - Até que horas seus irmãos ficam na escola?
            - Até às 19hs. Por quê?
            - Você disse que queria conhecer uma comuna. Poderia ir lá em casa a noite.
            - Eu preciso ficar com meus irmãos até dormirem...
            - Faça os dormir, depois vá até lá.
            - Não se importaria? Teria que ser após as 22hs. Tudo bem pra você?
            - Sim, tranquilo. Eu fico te esperando lá na Estação. Comuna 20S, não é tão difícil chegar.
***
            Aya havia preparado as couves. Ficara com as hortaliças, e, por isso, não deixou de por em prática o desejo de fazer aquelas folhas verde-escuro com manteiga e muito alho. Aproveitou também para pegar berinjelas, tomate, abobrinhas e pimentões e fazer algo próximo de ratatouille. Não era sempre que alguém a visitava. Muito menos alguém que ela havia ficado interessada.
            Kayan realmente era um rapaz apaixonante, pensara ela. Havia nele algo que a deixava extremamente próxima. Ela não acreditava em situações e pessoas perfeitas. Mas criava, dentro si, parâmetros que para ela poderia estar próximos do ideal para si. E ele era assim. O fato de ser aquele rapaz que precisou abrir mão de várias coisas em nome de sua família a deixou extremamente apaixonada. Ele era agradavelmente bonito. Não era uma beleza única. Mas, como Aya gostava de pensar “era um conjunto de coisas que o deixava bonito”. Era uma beleza de quem batalhava duro. Era um olhar de quem tinha muitos sonhos mesmo sendo pragmático. Ela realmente gostou dele. Não para tanto, resolveu convida-lo a sua casa.
            A couve já estava picada. O ratatouille assando. Aya não havia cozido a couve ainda para não deixa-la esfriar até que o rapaz chegasse. Estava dando 22horas. Resolveu sair de casa e ir até a Estação.
            A rua única da Comuna 20S estava bem iluminada, como de costume. O uso de energia solar garantia uma iluminação forte e constante, sem causar um peso na consciência desses jovens ambientalistas. Foi até o prédio central, e ficou lá esperando das às 22hs. Provavelmente ele seria o único a chegar naquele horário, uma vez que era sexta, e, sexta a noite era dia dos outros irem para San Remo encontrar alguma diversão acessível e intensa.
            A estação estava vazia. Não que alguma vez ela ficasse muito movimentada. Mas já era de noite, e, aparentemente a noite dava uma sensação maior de solidão. Para não pensar que estava tão sozinha assim, havia um policial fumando um cigarro eletrônico (que não expele fumaças) enquanto lia algum livro, sentado num dos bancos nunca lotáveis do local. Aya não tinha o costume de conversar com ninguém da comuna, e, portanto, não fora diferente naquela situação. O silêncio do local fez com que ela ouvisse certeiramente a chegada do trem, que estava 1minuto atrasado.
            Kayan desceu, e, de fato, era o único. Estava com suas roupas e seu estilo comum, do jeito que Aya estava gostando. Se cumprimentaram com um beijo no rosto, fazendo o policial estranhar a atitude. Foram para a casa dela conversando.
            - Espero que você não se importe de comer só vegetais hoje. Sou vegetariana, só preparei coisas desse tipo para comermos.
            - Ah, tranquilo. Eu acho muito interessante esse lance do vegetarianismo. Mas, talvez por causa dos meus olhos lindos de cor de mel, minha família sofre uma anemia pesada, e, nosso médico nos proíbe de não comer produtos animais.
            - Entendi. – Aya se sentiu um pouco frustrada. Já estava ensaiando, em pensamento, um forte discurso a favor de todas as pessoas do mundo pararem de comer carne. Mas, ele citou um argumento médico. Não que ela confiasse tanto assim, mas considerou que não poderia estragar a noite por causa de um bife.
            Chegaram à casa dela. Continuaram conversando enquanto Aya tirava o ratatouille do forno, e levava a couve com manteiga e alho para dar uma estalada na frigideira. O cheiro estava bom. “Essa moça sabe transformar esses legumes em coisas maravilhosas”, pensou Aya, que pensava que Kayan queria dizer isso. E foram comer. Conversando, bebendo um pouco da Água Altamente Mineralizada que ela consumia, e comendo bastante. Até que os talhares foram ficando cansativos, e mastigar já não era mais necessário. Era quase meia-noite.
            - Tudo muito bom, Aya. Muito obrigado mesmo.
            Aya corou. Retirava os pratos e os arrumava na cozinha. Kayan foi ajudar, e ela o interrompeu, dando-lhe um beijo, que fora correspondido.
            - Você falou que queria conhecer a comuna. Aqui do lado Leste tem uma grande plantação de trigo... No meio dela tem uma casinha. É bem tranquilo lá. Quer que eu te leve?
            Daquele momento em diante não era mais a razão daquela moça que falava. E ela esperava que o rapaz também não estivesse agindo muito racionalmente. Além de estar se sentindo atraída por Kayan, Aya também estava precisando de sexo. Já fazia bastante tempo que não tinha nada, e, como estava lá o homem que ela queria, não deveria passar a oportunidade de ir transar na casa agrícola da comuna.
            Os dois saíram de casa, de mãos dadas. Viraram a direita até chegarem ao portão que dava acesso a lavoura. Aproximaram-se da plantação de trigo. Os trigos estavam altos, próximo de serem colhidos, e, talvez, por isso, nenhuma pessoa acordada poderia os ver de suas janelas. Aya queria se dar a possibilidade de alguma aventura naquele momento.
            - Te encontro lá na casinha. Você me acha né?!
            - Com certeza! – disse Kayan.
            E os dois partiram correndo no meio da plantação. Já era meia-noite quando saíram sorrindo, dando gritinhos, e todo felizes, afinal, as luzes públicas da comuna estavam apagadas, e só era possível ver um reflexo de luz que, provavelmente, vinha da casa de Aya. Mas ela não queria pensar nisso agora. Ia atravessando cada pé de trigo, sentindo a plantação raspar no seu rosto, entrar no seu cabelo ruivo. Se machucava, não sabe. Ela estava gostando disso. Fazia barulho enquanto corria, e percebia ao seu redor o vulto de Kayan correndo também. Se excitava com a situação. Estava exultante, como há muito tempo não estava.
            A casinha do agricultor estava no meio da plantação de trigo. Era pequena, próximo a uma cabana. Feito de madeira, e suja como qualquer casa agrícola. Aya chegou lá antes de Kayan. Estava bagunçada, mas não se importava. Arfava um pouco, mas sentia que isso era mais pelo desejo ao rapaz do que pelo cansaço.
            Kayan chegou correndo e a agarrou enquanto iam os dois para dentro do local. Fora tudo muito brusco, rápido, intenso, e completamente excitante. Aya não pensava em mais nada. Apenas desejava poder tirar totalmente sua roupa para que Kayan a possuísse por inteiro. E foi conseguindo. E foi possuída mesmo com um pouco de roupa. E gemia alto, ela e ele. E se beijavam para diminuir o barulho, ou para aliviar o ritmo.
            Fora tudo muito bom e cansativo. Depois de atingir o máximo de prazer junto daquele rapaz, Aya, que estava extremamente cansada, e realizada e aliviada, não pensou em levantar. Ficou deitada naquele chão de madeira, sujo de terra, rodeada de instrumentos agrícolas, ferramentas de máquinas, e um par de coisas que em sã consciência não seria nada excitante. Mas naquele momento o fora.
            Puxou Kayan para perto de si, virando ele de barriga para cima. Recostou sua cabeça em seu peito. E assim ficaram os dois em silêncio. Bastante silêncio...
            Dois dias depois, a Polícia da Comuna 20S solta um aviso: a moradora Aya Rittmann estava desaparecida, e não haviam rastros de onde ela poderia se encontrar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Adstringência - 11 e Fim

ADSTRINGÊNCIA 

11 e Fim 

                Ofélia se mandou. Tudo o que sempre defendera fora por água a baixo para compensar a felicidade que ganhou. Está aí uma prova de que pessoas que sofrem demais a vida toda, ao terem um feixe de felicidade decidem se preocupar em se fazerem felizes. Salomão também estava bem. Viver a vida esperando a morte não é viver. Ele se sentiu traído a vida inteira, e resolveu aproveitar esse tempo perdido. A idade estava na cabeça, e não na certidão. E Salomão passou a acreditar nisso.

                Por outro lado, nosso Getúlio continuava quieto sobre o que ia fazer. Ele passou a vida inteira servindo ao Estado. Vendo pessoas vendendo informações. Vendo lobby. Por ele passaram informações valiosíssimas, que deram aos “compradores da informação” muito dinheiro à frente. E dinheiro, e poder.

                Saber algo da poder a quem sabe. Não era de hoje que Gegê sabia a importância do conhecimento. Sim ele liberta. Sim ele te torna uma pessoa melhor. Sim ele evolui o espírito. E se é possível viver mais e melhor quando sua mente esta treinada. Era inegável essas importâncias.

                Com isso em mente e com outras informações, nosso Getúlio resolveu ir às compras. Diferente das compras clichês da Ofélia. Getúlio andou pela costa carioca, capixaba, paulista. Resolveu usar todo o dinheiro arrecadado por ele, e por parte de sua herança (afinal a outra virou uma Sauna Gay de seu pai) para comprar áreas sem propósito. Comprou praias desertas. Feias até. Fez uma exigência explícita sobre quantas milhas náuticas ele queria. Na realidade, Gegê comprou mais terra submersa do que terra emersa.

                Nosso Getúlio sabia o que estava lá. Usou das Informações para comprar grandiosas reservas do petróleo brasileiro. Aquelas seriam sua propriedade privada, e ele sabia do bom senso que a Lei teria de respeitar isso. Lá estavam uma vasta maioria do petróleo canarinho. Gegê usou dos seus privilégios para conseguir tal coisa. Ele não tinha tecnologia para extrair, mas pouco importava. No futuro ele faria dinheiro. E se tornaria um dos homens mais ricos do país. Daria palestras sobre empreendedorismo. Seria louvado como um empresário de excelente gestão. Aham!

                Mas o Governo não sabia das terras? Não era algo estratégico? Estratégico? No Brasil? Getúlio sabia que ninguém levaria a mínima para estratégia. Ninguém casaria informações. Que sorte, Gegê. Anos mais tarde, quando você aparecer na Forbes, o Brasil vai casar, e aí os ‘novos ricaços’ vão começar a ficar putos.

                E Francisca não revelou seu segredo. Cometeu um pecado grande, que não merecia perdão. Iria passar o resto da vida se vestindo de homem, e, sempre antes de dormir, se maquiando para se sentir mulher. Mas ela resolveu dar um fim diferente a vida de outras mulheres.

                Ela sabia do sexismo do nosso país que respeita todas as diferenças (de fora, não de dentro). Era inteligente. Mas não seria valorizada sua inteligência enquanto mulher. Ela era inteligente o suficiente para saber como lutar e quais lutas lutar. Ela sabia o que imperava.

                Resolveu lutar pelos direitos da mulher. Entrou num partido de oposição. Discursava da importância de integrar a mulher da vida política, dos respeitos, das leis. Da violência doméstica... É. Era um trabalho digno. Francisca sabia que estaria fazendo um papel importante para outras senhoras. Usou da sua roupa de homem para ser ouvida em nome das mulheres.

                E num desses discursos que Francisca/Joaquim deu, após a eleição de um civil para Presidente, falando da importância da presença feminina, algumas mulheres feministas estavam lá estavam conversando.

                - Não é curioso um homem defender os direitos da mulher?

                - Daria no mesmo que um branco defender os direitos dos negros.

                - Sim. Mas é curioso. Este homem não sabe o que é ser mulher para defender nossos direitos. Quem deveria estar lá em cima somos nós, não eles.

                - É, deveria mesmo. Mas... Sabe... Cavalheirismo é uma coisa tão linda em um homem. Ver eles defendendo nossos direitos nos faz sentir extremamente protegidas.

                E no futuro, seria preciso um homem de novo para colocar uma mulher no topo do poder.


De: Gustavo Mendes

Caso for divulgar em outros meios, seja ético e mantenha a autoria.