Prólogo
28 de Junho, Ano 1
Já vinha de alguns anos uma Política do Governo Central
visando a reocupação do campo. As cidades se tornaram enormes, com deficiências
gigantescas, o que não se tornou algo fácil de ser resolvido. Assim, acabou
sendo mais natural fixar novas pessoas nas zonas rurais do que atacar os
imbróglios urbanos que vinham surgindo. A Política das Comunas Agrícolas
funcionou e funciona muito bem. Ela já existia durante o século 20, mas era
porcamente divulgada. Assim acabou se tornando um meio viável de aumentar a
qualidade de vida de modo global. O número de pessoas na cidade começou a
diminuir, enquanto que no campo aumentava. Obviamente que tal política vinha
recheada de benesses: minibairros extremamente modernos, dotados de escola e
hospital, e com fácil acesso por via terrestre ao grande centro urbano.
Muitos
jovens se interessaram por isso. Primeiro porque o local era de graça, e ainda
por cima do Governo Central pagava para sua fixação na terra. Junto com a
fixação, era necessário dispensar algumas horas de trabalhos semanais nas
lavouras. Algo de total subsistência, para a Comuna e para a Cidade. Assim,
como o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” aparentemente começou a vir
junto a genética de novas crianças, era natural que se passando os anos, elas
se interessassem por políticas similares.
Dentre
esses jovens ambientalistas estava Aya. Tinha seus 22 anos. Estudava numa
Faculdade afastada do centro urbano, logo, se tornou mais do que interessante
viver na Comuna. A sua era a Comuna 20S (número 20, da região Sul). Sempre fora
uma menina determinada, ou pela educação de seus pais, ou pelas situações em
que teve que passar na escola. Tinha um cabelo longo e ondulado, ruiva
original, levemente sardenta, com olhos azuis extremamente chamativos. Não era
alta, um padrão de altura normal, e razoavelmente magra. Transformara-se numa
mulher chamativa por ser original, diferentemente da criança, que era
considerada feia por ser diferente. Nunca se interessou por namoros
despretensiosos. Olhava os relacionamentos sob uma outra égide e talvez por
causa disso sofria com risinhos voluntários sobre ainda estar sozinha, com
vastos 22 anos, como diziam.
Morava
sozinha, por opção. Morar sozinho pagava menos, mas ao menos Aya tinha como
estudar nas horas vagas, e podia descansar sem ouvir a voz de ninguém quando
voltava da lavoura. Era uma casa simples, uns 40m² construídos: um quarto, uma
sala estreitamente para dois ambientes, uma cozinha para 1 pessoa, e o
banheiro. Não precisava além. E podia receber seus amigos, os poucos, quando
havia necessidade. Por fora da casa, uma simplicidade espartana também. O
desenho urbanístico da Comuna era minúsculo, justamente para impedir que se
transformassem em minicidades. Era 1 rua única, horizontal Leste-Oeste. No
extremo Leste, a Escola, no extremo Oeste, uma Clínica Médica, no centro, o
maior prédio do local envolvendo a Administração Pública e a Polícia, e também
a Estação de Trem. E as casinhas cresciam ao redor dessa única rua, que não
eram, obviamente, rodeadas de carros ou placas de sinalização. Havia uma praça
adequada também no centro da rua, em frente ao Grande Prédio dito acima. No
lado oposto ao Prédio, o Portão da Comuna que levava as lavouras, com seus
caminhos bastante retos e explicativos. E Aya morava no Setor Leste.
Aya
levantara cedo naquela sexta. Era véspera de sua folga na Comuna, e era seu
último dia de aula do semestre. Era uma boa razão para levantar antes do
horário, tomar um banho razoável, lavar o cabelo, preparar um café fraco, e
ligar a Televisão para ouvir algumas notícias: saber se o Presidente havia
morrido, se alguém explodiu uma Bomba Atômica, ou se mais uma Guerra Mundial
havia começado. Todas as outras informações, pensava Aya, eram iguais, só
mudavam as datas e em quem acontecia. Talvez por conta disso resolveu trocar o
canal do jornal “Bom Dia!”, e ir músicas. Deu preferência para suas
WorldMusic’s, difundidas em excesso nas últimas gerações. Ouvia enquanto
colocava uma quantidade generosa de café em sua caneca com símbolo vegan, e
preparava um lanche vegetariano. Sim, Aya também era vegetariana. Terminou seu
café, terminou de se arrumar, e saiu de casa, fechando-a através da biometria.
Era muito
cedo ainda, mais do que o costume de Aya em sair para pegar o trem. O dia
estava ainda se clareando todo, o vento ainda era fresco, e era possível ver o
fim de alguns pontos luminosos no céu. Ela estava sabendo que um planeta, que
ela não se lembrava de qual, estava nesses próximos dias com seu reflexo
incidindo com grande intensidade na Terra. Reparou isso, mas não ficou se
preocupando tanto. A cafeína começou a fazer efeito no seu organismo, e por
isso começou a sentir aquela costumeira sensação de euforia pós-cafeína, e
começou a pensar em milhões de coisas... Boas, sim. E se sentiu poderosa o
suficiente para conseguir tudo.
Observou à
sua esquerda algumas casas, com as lavouras ao fundo. Estava neste período na
obrigação de tomar conta da parte de hortaliças, que cresciam e morriam muito
rapidamente, daí a necessidade de tomar conta de mais de 1 espécie de planta.
Era comum nas Comunas que cada morador tomasse conta de 1 espécie por um
período determinado de tempo. A ideia final é de que todos pudessem ter passado
por todos os lugares produtivos. Aya pensou nas suas couves, e em prepara-las à
noite com manteiga e alho.
Continuou
seguindo na única rua de sua Comuna até chegar ao Grande Prédio. A construção
não era de fato grande, mas o era comparado as casas que haviam na Comuna. Eram
apenas 2 andares, sendo que no 1º fica a Polícia, no 2º a Burocracia Estatal.
No térreo havia um grande pátio, por causa da existência da Estação de Trem. O
prédio era todo branco, semiespelhado externamente: espelhos eram intercalados
com belas estruturas de concreto albino. Não haviam torres no telhado. Era um
telhado reto, com gramíneas. No futuro, quem sabe, seria possível transformar o
lugar num belo terraço, mas, atualmente, era impossível pensar nisso, por uma
opção financeira. No grande pátio da estação, novamente, aquela decoração
espartana: inexistente, porém, sabendo ser funcional. Algumas placas espalhadas
e só. Aya confirmou o horário de seu trem: faltavam ainda 5minutos.
Enquanto
esperava os 5minutos acabarem, Aya ficou pensando no seus bizarros fins de
semana. Ela nunca fizera muita questão de estar com alguém. Não era do seu
feitio, e aprendera a se dar bem sozinha. Gostava disso. Mas ela também
concordava que o homem é um animal social. Raramente, pensava, “se ve grandes
coisas da humanidades feitas por apenas uma pessoa isoladamente”. Percebia Aya
que algo podia ser melhorado, só não sabia o que. Não tinha culpa de ter se tornado
uma pessoa fechada pelo que já passara na vida. Mas também, “as pessoas que
vivem comigo hoje não tem culpa nisso”. E assim começou a condicionar algumas.
Ela já tinha 22 anos, e não demoraria para estar formada. Depois de formada,
possivelmente, resolveria voltar para a capital, San Remo, apesar de toda sua
consciência adorar a vida em Comuna. Ir viver numa cidade que pretendia ser a “única
cidade grande” do mundo era demasiada hipocrisia para ela. Mas, pensou, “a
única opção vantajosa da Comuna é o salário”.
O trem
começou a chegar. Com suas incríveis velocidades, que chegavam a 300km/h para
um transporte interurbano, conseguia ser mais do que eficiente. Aya passou seu
cartão, entrou, e sentou na primeira poltrona que viu. O trem realmente era de
qualidade. Por dentro todo estofado de cor azulada, por fora, uma estrutura
cilíndrica branca o envolvia. Da Comuna até a Estação de sua Faculdade eram
pouco mais de 20minutos. Deu tempo de ler mais um capítulo de um livro de felicidade
instantânea.
A Faculdade
de Aya poderia facilmente se enquadrar como uma comuna. Era um vasto campo, com
um prédio no centro dele, e varias casinhas adjacentes. A diferença é que sua
estrutura era totalmente radial. Como estava chegando razoavelmente cedo para
os padrões, era natural que todo o campus estivesse vazio.
Ao chegar
na estação, muito similar a estação de sua comuna, Aya, que estava muito
acostumada com o trajeto e com as pessoas que estão envolvidas no meio do
caminho, apenas estranhou um rapaz novo na estação, aparentemente um calouro,
ou apenas perdido.
- É
calouro? – perguntou ela.
- Ah, bom
dia. Não, não sou calouro não. Eu... Eu apenas resolvi pegar o trem e parar
aqui para conhecer o campus. Tinha ouvido falar que era legal, e como eu to com
o dia de folga, resolvi passar aqui.
- Ah...
Entendi. Primeira vez então aqui? De onde você vem?
- Venho da
capital. Lá, você deve saber, não tem como fazer um campus dessa forma.
Concreto em excesso... Você mora onde lá?
- Na
realidade não moro em San Remo. Sou da Comuna 20S. Comunas viraram lugar para
estudantes morarem depois que o Governo passou a pagar para sairmos das
cidades.
- Ah, é...
Eu nunca fui numa comuna também. Na realidade nunca fui em muito lugar.
- Ahm...
Quantos anos?
- Eu? 20.
- E é tão
preso assim?
- Preciso.
Meus pais morreram e eu preciso tomar conta dos meus irmãos gêmeos mais novos.
Não tem como eu fazer certas coisas, porque eles precisam de mim. Tive que
abrir mão de faculdade e trabalhar para poder sustenta-los. Logo menos eles me
chamaram de pai...
- Ah...
Que triste... Meus sentimentos.
- Relaxa.
Você se importa de me levar para conhecer esse lugar?
- Claro,
claro. Como você se chama mesmo? Meu nome é Aya.
- Prazer.
Sou Kayan.
Ambos
saíram do prédio da estação e resolveram ir ao prédio central da Faculdade. De
lá partiam varias ruelas. Para facilitar conhecer o local, Aya sugeriu de irem
até o mirante, que ficava foram do raio de construções ligadas do campus. Mas,
ao menos, ela teria tempo de mostrar o lugar para o jovem, e poderia até
conhece-lo melhor.
- Talvez o
mirante seja o melhor lugar para você ver tudo daqui.
- Tudo
bem, não me importo de andar mais.
- Venha.
Eu tenho aula daqui 40minutos. Tenho um tempo para te levar até lá.
Os dois
foram no sentindo sudeste (em relação ao prédio central). No caminho, nas
poucas vezes que foram conversando, Aya fora se sentindo gostando do rapaz. É
certo que se conheceram não faziam 5 minutos. Mas ela nutria aquela velha
história de que poderia conhecer alguém legal em qualquer momento. Achou que
Kayan poderia ser essa pessoa. Além de ser bonito, era simpático. O jovem era
um pouco maior que ela. Cabelos bastante claros, pele bastante clara, e um olho
cor de caramelo. Nunca vira alguém com cor nos olhos assim. Era uma
característica bastante incomum, e só havia visto em fotos. Achou o conjunto
todo harmônico, todo dourado, pensou. Em momento bastante fora de si, Aya se
viu pensando que ter filhos com Kayan traria uma ótima certeza: seus filhos
teriam uma pele extremamente clara.
- Você
trabalha em que?
- Eu
trabalho numa central de callcenter. Não exige muita especialidade, e eu não
tenho tempo de me especializar. Faço uma jornada dupla, enquanto meus irmãos
ficam integralmente na escola. E vai sendo assim, domingo a domingo. Você
estuda aqui né?! Faz o que?
- Estudo
Engenharia Genética. Meu forte é na área de botânica. Mas a gente sempre
conhece algumas outras áreas. Você tem uma cor de olho rara de se encontrar.
Kayan
ficou sem graça.
- Ah... É.
Meus pais também tinham olhos assim, e sempre brincaram com eles dizendo que
eles eram parentes por causa disso. Eu e meus irmãos também acabamos tendo.
Pena que eu não posso desfilar tanto ele assim.
Aya soltou
uma risada, que foi acompanhada pelo jovem.
- Você não
vai trabalhar hoje?
- Um dos
nossos chefes faleceu. Não gosto de velórios. Como tenho que acordar sempre
muito cedo, por causa dos meus irmãos, tive tempo de vir aqui.
- Ah,
entendi.
Continuaram
andando, até que chegaram no mirante. Lembrava bastante um minarete. Uma altura
próxima a um prédio de 6 andares. Apenas 1 elevador no térreo, que levava
diretamente ao topo. Uma torre feita totalmente de predas. Diziam que fora
feita no século 19. O elevador, obviamente, veio no século 21.
- É aqui.
– disse Aya, enquanto foram subindo.
Na subida
continuaram conversando. E Aya resolveu tomar uma de suas poucas iniciativas.
- Até que
horas seus irmãos ficam na escola?
- Até às
19hs. Por quê?
- Você
disse que queria conhecer uma comuna. Poderia ir lá em casa a noite.
- Eu
preciso ficar com meus irmãos até dormirem...
- Faça os
dormir, depois vá até lá.
- Não se
importaria? Teria que ser após as 22hs. Tudo bem pra você?
- Sim,
tranquilo. Eu fico te esperando lá na Estação. Comuna 20S, não é tão difícil
chegar.
***
Aya havia
preparado as couves. Ficara com as hortaliças, e, por isso, não deixou de por
em prática o desejo de fazer aquelas folhas verde-escuro com manteiga e muito
alho. Aproveitou também para pegar berinjelas, tomate, abobrinhas e pimentões e
fazer algo próximo de ratatouille. Não era sempre que alguém a visitava. Muito
menos alguém que ela havia ficado interessada.
Kayan
realmente era um rapaz apaixonante, pensara ela. Havia nele algo que a deixava
extremamente próxima. Ela não acreditava em situações e pessoas perfeitas. Mas
criava, dentro si, parâmetros que para ela poderia estar próximos do ideal para
si. E ele era assim. O fato de ser aquele rapaz que precisou abrir mão de
várias coisas em nome de sua família a deixou extremamente apaixonada. Ele era
agradavelmente bonito. Não era uma beleza única. Mas, como Aya gostava de
pensar “era um conjunto de coisas que o deixava bonito”. Era uma beleza de quem
batalhava duro. Era um olhar de quem tinha muitos sonhos mesmo sendo
pragmático. Ela realmente gostou dele. Não para tanto, resolveu convida-lo a
sua casa.
A couve já
estava picada. O ratatouille assando. Aya não havia cozido a couve ainda para
não deixa-la esfriar até que o rapaz chegasse. Estava dando 22horas. Resolveu
sair de casa e ir até a Estação.
A rua
única da Comuna 20S estava bem iluminada, como de costume. O uso de energia
solar garantia uma iluminação forte e constante, sem causar um peso na
consciência desses jovens ambientalistas. Foi até o prédio central, e ficou lá
esperando das às 22hs. Provavelmente ele seria o único a chegar naquele
horário, uma vez que era sexta, e, sexta a noite era dia dos outros irem para
San Remo encontrar alguma diversão acessível e intensa.
A estação
estava vazia. Não que alguma vez ela ficasse muito movimentada. Mas já era de
noite, e, aparentemente a noite dava uma sensação maior de solidão. Para não
pensar que estava tão sozinha assim, havia um policial fumando um cigarro
eletrônico (que não expele fumaças) enquanto lia algum livro, sentado num dos
bancos nunca lotáveis do local. Aya não tinha o costume de conversar com
ninguém da comuna, e, portanto, não fora diferente naquela situação. O silêncio
do local fez com que ela ouvisse certeiramente a chegada do trem, que estava
1minuto atrasado.
Kayan
desceu, e, de fato, era o único. Estava com suas roupas e seu estilo comum, do
jeito que Aya estava gostando. Se cumprimentaram com um beijo no rosto, fazendo
o policial estranhar a atitude. Foram para a casa dela conversando.
- Espero
que você não se importe de comer só vegetais hoje. Sou vegetariana, só preparei
coisas desse tipo para comermos.
- Ah,
tranquilo. Eu acho muito interessante esse lance do vegetarianismo. Mas, talvez
por causa dos meus olhos lindos de cor de mel, minha família sofre uma anemia
pesada, e, nosso médico nos proíbe de não comer produtos animais.
- Entendi.
– Aya se sentiu um pouco frustrada. Já estava ensaiando, em pensamento, um
forte discurso a favor de todas as pessoas do mundo pararem de comer carne.
Mas, ele citou um argumento médico. Não que ela confiasse tanto assim, mas
considerou que não poderia estragar a noite por causa de um bife.
Chegaram à
casa dela. Continuaram conversando enquanto Aya tirava o ratatouille do forno,
e levava a couve com manteiga e alho para dar uma estalada na frigideira. O
cheiro estava bom. “Essa moça sabe transformar esses legumes em coisas
maravilhosas”, pensou Aya, que pensava que Kayan queria dizer isso. E foram
comer. Conversando, bebendo um pouco da Água Altamente Mineralizada que ela
consumia, e comendo bastante. Até que os talhares foram ficando cansativos, e
mastigar já não era mais necessário. Era quase meia-noite.
- Tudo
muito bom, Aya. Muito obrigado mesmo.
Aya corou.
Retirava os pratos e os arrumava na cozinha. Kayan foi ajudar, e ela o
interrompeu, dando-lhe um beijo, que fora correspondido.
- Você
falou que queria conhecer a comuna. Aqui do lado Leste tem uma grande plantação
de trigo... No meio dela tem uma casinha. É bem tranquilo lá. Quer que eu te
leve?
Daquele
momento em diante não era mais a razão daquela moça que falava. E ela esperava
que o rapaz também não estivesse agindo muito racionalmente. Além de estar se
sentindo atraída por Kayan, Aya também estava precisando de sexo. Já fazia
bastante tempo que não tinha nada, e, como estava lá o homem que ela queria,
não deveria passar a oportunidade de ir transar na casa agrícola da comuna.
Os dois
saíram de casa, de mãos dadas. Viraram a direita até chegarem ao portão que
dava acesso a lavoura. Aproximaram-se da plantação de trigo. Os trigos estavam
altos, próximo de serem colhidos, e, talvez, por isso, nenhuma pessoa acordada
poderia os ver de suas janelas. Aya queria se dar a possibilidade de alguma
aventura naquele momento.
- Te
encontro lá na casinha. Você me acha né?!
- Com
certeza! – disse Kayan.
E os dois
partiram correndo no meio da plantação. Já era meia-noite quando saíram
sorrindo, dando gritinhos, e todo felizes, afinal, as luzes públicas da comuna
estavam apagadas, e só era possível ver um reflexo de luz que, provavelmente,
vinha da casa de Aya. Mas ela não queria pensar nisso agora. Ia atravessando
cada pé de trigo, sentindo a plantação raspar no seu rosto, entrar no seu
cabelo ruivo. Se machucava, não sabe. Ela estava gostando disso. Fazia barulho
enquanto corria, e percebia ao seu redor o vulto de Kayan correndo também. Se
excitava com a situação. Estava exultante, como há muito tempo não estava.
A casinha
do agricultor estava no meio da plantação de trigo. Era pequena, próximo a uma
cabana. Feito de madeira, e suja como qualquer casa agrícola. Aya chegou lá
antes de Kayan. Estava bagunçada, mas não se importava. Arfava um pouco, mas
sentia que isso era mais pelo desejo ao rapaz do que pelo cansaço.
Kayan
chegou correndo e a agarrou enquanto iam os dois para dentro do local. Fora
tudo muito brusco, rápido, intenso, e completamente excitante. Aya não pensava
em mais nada. Apenas desejava poder tirar totalmente sua roupa para que Kayan a
possuísse por inteiro. E foi conseguindo. E foi possuída mesmo com um pouco de
roupa. E gemia alto, ela e ele. E se beijavam para diminuir o barulho, ou para
aliviar o ritmo.
Fora tudo
muito bom e cansativo. Depois de atingir o máximo de prazer junto daquele
rapaz, Aya, que estava extremamente cansada, e realizada e aliviada, não pensou
em levantar. Ficou deitada naquele chão de madeira, sujo de terra, rodeada de
instrumentos agrícolas, ferramentas de máquinas, e um par de coisas que em sã
consciência não seria nada excitante. Mas naquele momento o fora.
Puxou
Kayan para perto de si, virando ele de barriga para cima. Recostou sua cabeça
em seu peito. E assim ficaram os dois em silêncio. Bastante silêncio...
Dois dias
depois, a Polícia da Comuna 20S solta um aviso: a moradora Aya Rittmann estava
desaparecida, e não haviam rastros de onde ela poderia se encontrar.