quarta-feira, 21 de março de 2012

Adstringência - 11 e Fim

ADSTRINGÊNCIA 

11 e Fim 

                Ofélia se mandou. Tudo o que sempre defendera fora por água a baixo para compensar a felicidade que ganhou. Está aí uma prova de que pessoas que sofrem demais a vida toda, ao terem um feixe de felicidade decidem se preocupar em se fazerem felizes. Salomão também estava bem. Viver a vida esperando a morte não é viver. Ele se sentiu traído a vida inteira, e resolveu aproveitar esse tempo perdido. A idade estava na cabeça, e não na certidão. E Salomão passou a acreditar nisso.

                Por outro lado, nosso Getúlio continuava quieto sobre o que ia fazer. Ele passou a vida inteira servindo ao Estado. Vendo pessoas vendendo informações. Vendo lobby. Por ele passaram informações valiosíssimas, que deram aos “compradores da informação” muito dinheiro à frente. E dinheiro, e poder.

                Saber algo da poder a quem sabe. Não era de hoje que Gegê sabia a importância do conhecimento. Sim ele liberta. Sim ele te torna uma pessoa melhor. Sim ele evolui o espírito. E se é possível viver mais e melhor quando sua mente esta treinada. Era inegável essas importâncias.

                Com isso em mente e com outras informações, nosso Getúlio resolveu ir às compras. Diferente das compras clichês da Ofélia. Getúlio andou pela costa carioca, capixaba, paulista. Resolveu usar todo o dinheiro arrecadado por ele, e por parte de sua herança (afinal a outra virou uma Sauna Gay de seu pai) para comprar áreas sem propósito. Comprou praias desertas. Feias até. Fez uma exigência explícita sobre quantas milhas náuticas ele queria. Na realidade, Gegê comprou mais terra submersa do que terra emersa.

                Nosso Getúlio sabia o que estava lá. Usou das Informações para comprar grandiosas reservas do petróleo brasileiro. Aquelas seriam sua propriedade privada, e ele sabia do bom senso que a Lei teria de respeitar isso. Lá estavam uma vasta maioria do petróleo canarinho. Gegê usou dos seus privilégios para conseguir tal coisa. Ele não tinha tecnologia para extrair, mas pouco importava. No futuro ele faria dinheiro. E se tornaria um dos homens mais ricos do país. Daria palestras sobre empreendedorismo. Seria louvado como um empresário de excelente gestão. Aham!

                Mas o Governo não sabia das terras? Não era algo estratégico? Estratégico? No Brasil? Getúlio sabia que ninguém levaria a mínima para estratégia. Ninguém casaria informações. Que sorte, Gegê. Anos mais tarde, quando você aparecer na Forbes, o Brasil vai casar, e aí os ‘novos ricaços’ vão começar a ficar putos.

                E Francisca não revelou seu segredo. Cometeu um pecado grande, que não merecia perdão. Iria passar o resto da vida se vestindo de homem, e, sempre antes de dormir, se maquiando para se sentir mulher. Mas ela resolveu dar um fim diferente a vida de outras mulheres.

                Ela sabia do sexismo do nosso país que respeita todas as diferenças (de fora, não de dentro). Era inteligente. Mas não seria valorizada sua inteligência enquanto mulher. Ela era inteligente o suficiente para saber como lutar e quais lutas lutar. Ela sabia o que imperava.

                Resolveu lutar pelos direitos da mulher. Entrou num partido de oposição. Discursava da importância de integrar a mulher da vida política, dos respeitos, das leis. Da violência doméstica... É. Era um trabalho digno. Francisca sabia que estaria fazendo um papel importante para outras senhoras. Usou da sua roupa de homem para ser ouvida em nome das mulheres.

                E num desses discursos que Francisca/Joaquim deu, após a eleição de um civil para Presidente, falando da importância da presença feminina, algumas mulheres feministas estavam lá estavam conversando.

                - Não é curioso um homem defender os direitos da mulher?

                - Daria no mesmo que um branco defender os direitos dos negros.

                - Sim. Mas é curioso. Este homem não sabe o que é ser mulher para defender nossos direitos. Quem deveria estar lá em cima somos nós, não eles.

                - É, deveria mesmo. Mas... Sabe... Cavalheirismo é uma coisa tão linda em um homem. Ver eles defendendo nossos direitos nos faz sentir extremamente protegidas.

                E no futuro, seria preciso um homem de novo para colocar uma mulher no topo do poder.


De: Gustavo Mendes

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terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 10

ADSTRINGÊNCIA


10

                Ofélia e seus clichês. Saiu cheia da grana. Estava feliz. Só não sabia o que fazer com aquilo. Ela passou toda uma vida querendo uma vida melhor, para si e para os outros. Ofélia usava do discurso de estarmos todos ligados para explicar que as discrepâncias sociais merecessem ser diminuídas. Seria normal isso? Ofélia lembrava que alguns dos pseudo-intelectuais que ela encontrava falavam de algum carinha que citava a importância de na juventude defender essas coisas... Será isso Ofélia?

                Mas a dúvida era: Ofélia era brasileiramente clichê, ou ela era humanamente clichê?

                E depois de toda uma vida. Depois de ter trabalhado tanto. Depois de levar algumas sortes, e muitos azares. E de saber sorrir mais vezes. Depois de aguentar o trabalho numa casa de outra pessoa. Ou seja, de se submeter, como sempre. Ofélia sentiu a vontade de esquecer tudo. A velha ideia que recorre na sua vida de sorrir mais. Mas agora ela queria sorrir de verdade.

                Ela sabia que era humilde, e que os “bons profissionais” brasileiros poderiam tirar proveito do dinheiro dela. Não sabia a quem recorrer para pedir ajuda. Ajuda de: onde enfiar essa coisa?! Do que adianta uma pessoa que não sabe o que fazer com dinheiro receber tanto dinheiro? Ah... Que seja Ofélia. Tome uma atitude a sua altura!

                E tomou. Pegou o dinheiro, e foi embora. Sim, literalmente embora. Só a vi embarcando num avião. Toda peruada. Uma “nova rica”. Para que viver de lamentação? Ela não era Jeremias. Se preocupar com os outros? Ah... Depois ela ajudava... Era a melhor forma de lavar a consciência pesada. O importante era que ela estava bem, e os outros que tentassem se resolver... Ela se resolvera! Clichê, não?!

                Já nosso Getúlio estava entrando no Gabinete do Chefe, no SNI.

                - O Relatório.

                - Eficiente como sempre, Gegê.

                Nosso Getúlio se remexia com esse apelido. Odiava, você sabe. “Como eu pude suportar isso por tanto tempo?”. É, quantas pessoas não morrem sem nem se perguntar isso? Getúlio não era clichê, mas se Ofélia gostasse dele e pudesse falar algo, falaria: “tem coisas na vida que a gente desconhece”. Sem muitas firulas. E, de fato seria isso.

                Até agora nosso Getúlio não sabia dosar até onde Joaquim mudara sua forma de ver as coisas. Na realidade, as vezes nem foi o auxiliar. As vezes a própria raiva de ter que trabalhar aposentado. Mandar aposentados trabalharem é um perigo. Durante a raiva, vale dizer, as pessoas se tornam mais ágeis. Sabem ver além. Talvez ela faltasse. No fim de todo o processo de investigação, Gegê já sentia raiva até do Governo, do Estado, das pessoas. “Ah, mas as pessoas não têm culpa...”. Tem sim, pensava, Gegê. Ninguém pediu Contratos Sociais.

                O Chefe não resolveu ler o Relatório na hora. Estava ocupado com o Responsável pelo RH (sério que eles acreditavam que tinha RH) para resolver a aposentadoria do Joaquim. E nosso Getúlio deixou o Chefe. Passou em mais algumas salas. Colheu algumas últimas coisas. E, saindo do prédio, percebeu o que deveria fazer no que restava de vida. Quem se importaria né?!

                E Salomão, o novo gay. Novo gay? As vezes ele tenha sido a vida inteira. Salomão foi atingido pela ironia do destino. E ele nunca iria saber. Mas era melhor assim. As vezes o Destino prega peças na gente para nos deixar felizes. Isso se o Destino existir. Mas no caso do Salomão, tudo foi muito bem.

                Salomão pegou o dinheiro que tinha guardado. Era bastante. Não pensou em usar tudo. Mas resolveu se divertir. Mas não sozinho, porque não tem graça. Pessoas mais novas, da idade dele. Que seja. Nunca seria tarde para começar a sorrir pra vida. Encarar com menos caretice. Sim. Salomão conseguiu diminuir as caretas tatuadas na sua face.

                 E enquanto continuava mudando sua auto-caricatura, Salomão começou a finalizar a abertura de uma Sauna. Não, não era na Capital Federal. Salomão resolveu voltar pro Rio. E estava mais do que satisfeito por viver do sexo.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 9

ADSTRINGÊNCIA


9

                E Ofélia se inscreveu no programa. E conseguiu participar. Era daqueles programas de auditório famosos. A função dela? Apenas responder perguntas. Ofélia sabia que a maioria das pessoas que participavam do programa eram muito “desprovidas de educação” ou “covardes ao extremo para não responder”. Ela ainda não sabia o que concluir.

                Então estava lá ela num Programa Dominical, apresentado por um Judeu Milionário. No momento Ofélia pensou que ele não era esquerdista como os que ela conheceu... Mas foi até ver ele brincando com o dinheiro, e como “ele ajudava demasiadamente os pobres”. Ai, Ofélia. Se você já estivesse mergulhado na micvê, você podia tentar a sorte.

                E começaram as perguntas. E as respostas. Ofélia guardou sua petulância um pouco. Mas conseguiu passar confiança. Era bom? Vai entender. Ofélia apenas sabia que ganhar aquela bolada poderia mudar sua vida. Como? Ela ainda não tinha pensado. Mas, sim Ofélia, seria bom você começar a pensar porque a bolada é sua. Sim, Ofélia ganhou uma quantia enorme de barras de ouro. E ficou feliz e satisfeita. Agora tinha que ir atrás dos procedimentos burocráticos (diga ‘Oi!’ para a Receita) e poderia ter o dinheiro a mão. Dinheiro não, Barras de Ouro.

                Enquanto Ofélia ganhava o sua riqueza e pensava em se livrar da servidão voluntária, Gegê e Joaquim continuavam trabalhando. Nosso Getúlio foi pego por várias situações surpreendentes. A primeira e mais importante é que ele era um idiota total nas mãos do Governo. A segunda e não menos importante é que o trabalho não estava indo para lugar nenhum (como comentamos). A terceira e não muito importante era a que ele tinha que entregar o relatório final e indicar um suspeito.

                - É obrigatório entregar o relatório com indicação de alguém? – perguntou Joaquim, que naqueles dias já estava virando amigo do nosso Getúlio... Amigo ou Padrasto?

                - Obrigatório? Vejamos... Há séculos atrás quando os Reis voltaram ao Poder, a Nobreza tornou-se o embrião da Administração Pública... Queriam benesses e emprego fixo, e segurança... Era melhor do que o Rei usar seu Exército contra eles. Depois vieram os Burgueses. E aí Weber começou a falar umas coisas. E aí o Estado ficou complexo, cheio de normativismos. Porém a essência, Seu Joaquim, é a mesma: benesses e emprego fixo, e segurança. E ainda é melhor que o Exército não bata a minha porta. Mudou algo?

                - Mas não há indício de nada.

                - Na realidade há, se me permite.

                - Olha, Seu Getúlio. O senhor vai indicar alguém inocente? E se as Diretas derem em algo? A perseguição ao senhor...

                - Não vou indiciar alguém inocente. Não há inocentes. Mentalmente ninguém... Mas pra ser sincero quero me livrar disso. To aposentado, quero... Tá vendo?! Nem sei o que quero...

                - Preciso fazer o que então?

                - Vá para a casa. Seu trabalho acabou. Planeje sua vida, peça sua aposentadoria. O senhor guardou um bom dinheiro, faça algo com ele, se ainda tiver um pouco de sanidade... Ou não, sei la.

                E Joaquim trocou mais algumas palavras. E se foi. Joaquim tinha criado algum vínculo com Getúlio e Salomão. Apesar de Joaquim/Francisca achar que quem criara vínculo com ela fora Salomão, e não ocorria vice-versa. “Se aposentar?”, pensava. “Não era má ideia”. Mas o que fazer depois? Os dias com Gegê foram bons. E ambos conseguiram evoluir em vários aspectos, além de perceberam sutilezas da vida onde ninguém percebe. Especialmente se percebe quando se tem o controle da informação. Controlar a informação é útil...

                 Do outro lado nosso Getúlio tomou uma decisão: ia terminar o relatório, e fazer o indiciamento. E começou a enumerar mil e umas razões no relatório. Cheios de justificativas. Estava determinado a terminar o último trabalho. E incriminou alguém. Quem? Ele mesmo.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 8

ADSTRINGÊNCIA


8

                O trabalho de Joaquim e Gegê foi indo para lugar nenhum. Gegê começou a se incomodar com isso. Ele já estava aposentado, ele já estava muito bem com a vida. Ele tinha seu dinheiro, tinha o dinheiro do pai. Não que ele aproveitasse isso, afinal, passar uma vida de servidor não lhe ajuda a querer pensar em formas de liberdade mental, a não ser que seu vassalo seja burro o suficiente para permitir que você se incomode.

                Ele tirou um dia para conversar com Joaquim sobre o rumo de tudo aquilo. Não sabia exatamente para onde realmente as coisas estavam indo, e ficava preocupado... “E se aquelas Diretas derem em alguma coisa?”. Gegê pela primeira vez desejou acabar um trabalho não pelo trabalho, mas para se ver livre totalmente do Governo. Talvez tenha se convencido de algumas opiniões de Joaquim.

                Joaquim por outro lado se sentia acuado. Começou a se incomodar com o pai de Gegê. Ele, ou melhor, ela, tinha duvidas de como um homem olha quando tem interesse. Ela lembrava vagamente de como era isso no início da juventude. Sentiu-se naquele momento desejada, claro. Sentia vergonha de se disfarçar, claro. Mas entendia as razões de sua prisão particular. “Sobrevivência, Francisca, é tudo questão de Sobrevivência”, mesmo que ela não entendesse muito bem até onde tudo isso poderia ir. Mas, ficou assustada ao perceber que na realidade Salomão olhava para ela, e sim para ele. Salomão, aquele senhor, na verdade era gay.

                Francisca nunca trabalha com essa ideia de um homem dar em cima dela. Achava tal motivo tão absurdo, irreal, que ela não soube como reagir. Para ela, gays se relacionavam com gays. E gays eram gays, oras. Um terceiro sexo, talvez?! Ela não conseguia imaginar um homem sendo gay, e daí toda essa confusão na cabeça dela. Era tanta confusão, tanta coisa nova, que ela não sabia como reagir quando Seu Salomão a puxava para conversar.

                - Seu filho saiu, Seu Salomão.

                - Eu sei, Joaquim. Na verdade vim aqui falar com você.

                - Pois não?!

                - Casado?

                - Não exatamente.

                - Como é possível exatamente?

                - Digamos que outras coisas funcionem para mim.

                - Ah, sim, claro. Entendo perfeitamente.

                - ...

                - Sabe, ultimamente eu também ando achando que outras coisas funcionem para mim.

                - Sério? É caro?

                - Caro? Não... Vem até barato...

                - Mas?

                - Mas não sei como lidar com isso. É tudo muito complicado.

                - Ah, tudo é muito complicado. Só cachorros transando que é algo simples.

                - É...

                Joaquim/Francisca sabia que fez merda. Não saber se explicar a algumas perguntas foi o bastante para perceber uma mudança de brilho de olhos do pai de seu chefe-no-momento. E um esboço de sorriso. Até que Salomão lhe deu um abraço, e falou “você é um bom rapaz”. Salomão se sentiu estranho. Resolveu mudar a estratégia para resolver seus problemas.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 7

ADSTRINGÊNCIA


7

                Era teoricamente o primeiro dia de trabalhos conjuntos entre Joaquim e Gegê. Por uma histórica preocupação, nosso Getúlio já havia levado algumas boas pastas até seu apartamento. Enquanto estava na cozinha esperando o pão da Ofélia assar, e enquanto seu pai se atordoava com Joaquim e saía de casa, Joaquim chegava, trocando aquelas cumprimentos breves e insensíveis típicos de homens alfa.

                - Essas pastas você trouxe lá do SNI, Getúlio?

                - Sim, trouxe ontem para cá. Na verdade não são documentos muito sérios, oficiais, empopoados. São apenas relatos pessoais de cada possível traidor.

                - Vamos procurar por um traidor em suas próprias palavras?

                - E como iríamos fazer? Essas coisas de investigação do SNI beiram o absurdo no ponto que tem coisas que são sutis demais para se perceber. Mas, são essas sutilezas, ou indiferenças como alguns incompetentes resolvem chamar, que faz toda a diferença.

                Joaquim percebeu que o trabalho seria longo. Mas depois de perceber isso, se atentou para a utilidade disso.

                - Esse Estado Militar pode acabar...

                - Logo o senhor acha que o SNI acabaria?

                - Provavelmente.

                - O que se está em jogo não é isso. O que está em jogo é quem está mandando... E quem manda precisa saber das coisas, mesmo que faça de conta que não sabe...

                Ofélia continuou esperando pelo pão. Como dito, ela era exímia cozinheira. Seu Salomão gostava de comer bem, o que deixava a Ofélia realizada em querer fazer as coisas para ele, apesar de acha-lo um porre. Mas, dos males os pior: nada melhor do que conquistar a pessoa que você acha mais insuportável possível por um motivo bastante orgânico, animal, instintivo. No fim, quando mais nada havia de importante no mundo, seu estomago roncando de tristeza ou alegria determinaria seu caráter.

                A nossa ex-aprendiz de Bertoleza lia o jornal do Gegê. Ela acompanhava, além dos Jornais, a Televisão. E assim como os Jornais que lia, Ofélia sabia que a Televisão era ainda mais ligada com os milicos. Ofélia era toda clichê, e adorava pensar “uma imagem vale mais que mil palavras” e daí entendia como algumas emissoras de TV conseguiam pagar suas dívidas.

                Por ver televisão conhecia alguns programas de auditório. Por ler jornais, via suas propagandas. E por ouvir conversas de gente inteligente (ou pseudo-intelectuais), sabia algumas coisas. E se animou com uma promoçãozinha lá. Um programa de auditório, responder perguntas, e ganhar algumas boas Barras de Ouro, as quais, sabia Ofélia pelos judeus, “valiam mais que dinheiro porque eram a base do papel” – apesar de ela não entender isso muito bem, confiava. E resolveu tentar a sorte, a boa no caso.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 6

ADSTRINGÊNCIA


6

                Salomão era um homem razoavelmente sério. Teve uma educação bastante rígida, e talvez por isso, diria a psicanálise, ele possivelmente não tivesse revelado completamente. Tá. Acontece que Salomão também passou essa educação rígida ao nosso Getúlio. O casamento deste senhor foi apenas um acerto social. Afinal, amor em casamento? Amor?

                Salomão cresceu nessa ideia, de que todas as coisas ao redor dele são estáticas. Apenas a racionalidade poderia levar a algum futuro promissor. Muita frescura não era saudável. E Salomão era católico. E acreditava nos santos e na trindade. E ainda falava da frescura...

                Ele não se resumia como uma pessoa feliz. Feliz? Ele estava satisfeito. Ele arrecadou muito dinheiro, teve uma ótima esposa que o acompanhava em vários eventos, um filho muito respeitado no Governo... Por que ele desejaria algo diferente? Não era isso que todo homem tem que buscar? Homem, XY.

                Mas o destino é irônico, Seu Salomão. O senhor até poderia não saber como algumas coisas funcionavam, especialmente nesses sentimentos “de mulher”. O senhor não fui educado para isso, e talvez o senhor devesse culpar seu pai sexista. E talvez o senhor tivesse se apaixonado por uma mulher que seria sua esposa até hoje. Mas acabou conhecendo o Joaquim.

                E por mais impossível e ilógico que poderia parecer, Joaquim era mulher. E nunca saberemos se Salomão, como um bom animal do sexo masculino, percebeu que lá estava uma mulher. Mas o certo é que os olhos de Salomão viram um homem. De início ele apenas sentiu algo razoavelmente agradável, afinal, algumas coisas não dão para controlar. Mas, depois que Joaquim foi recebido por Gegê, Salomão ficou desconcertado e resolveu sair para andar, apesar de ser interrompido na saída do apartamento por uma sorridente idosa feliz.

                - Seu Salomão, resolveu sair. Todo perfumado. Vai passear?

                - Dona Salete! Resolvi dar uma arejada.

                - É, é sempre bom...

                - Dona Salete, se me permite... A senhora é viúva?

                - Não, Seu Salomão. Eu me separei.

                - E por que?

                - Coisas de mulheres, sabe?! Aquela ideia de achar que alguém vai gostar de você de verdade.

                - Uhm... Por que coisas de mulher?

                - Deve ser porque não somos fortes o suficiente para fazermos coisas que homens fazem, e daí nos é dado o dever de ficar com essas coisas...

                - Entendi... E a senhora se casou de novo?

                - Não sou sapatão, Seu Salomão... Se me der licença, preciso entrar em casa.

                Salomão foi andar. Não gostava muito do ar da Capital Federal. Achava uma coisa absurda esperar que as pessoas sobrevivessem naquilo. As vezes ele achava que isso era uma barreira natural contra manifestações populares, o que era lá uma coisa boa. Mas se preocupou com portadores de doenças respiratórias que precisassem ir até o Governo. E ficou pensando nisso, esquecendo o que aconteceu quando viu Joaquim.

                Mas, Salomão era bastante inteligente. E sabia que desejar não pensar era garantia de pensar. Naquele momento sentiu um pouco de medo. Na verdade chegou até a diminuir os passos, alguma coisa não estava certa. Sim, Seu Salomão naquele momento pensou que ele era gay.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 5

ADSTRINGÊNCIA


5

          - “Queremos votar para Presidente”... por que esse povo não se muda para os Estados Unidos de uma vez? Só tem rico pedindo isso... Rico que pode ir embora daqui! – falou Gegê.

          - O senhor anda comendo merda? – retrucou Ofélia, iniciando um diálogo na mesa do café.

          - Não Ofélia, eu não como cashrut.

          - O senhor é um porco anti-semita, sabia?!

          - É redundante falar “porco anti-semita”... Você nem é judia, Ofélia. Você é quase negra!

          - Ai Seu Getúlio... E o respeito pelos outros? E o respeito pela vontade de votar?

          - Votar... Em quem a senhora votaria, por acaso?

          - Oras, eu ia votar no melhor candidato, no qual eu confiasse, que me passasse confiança, que prometesse boas coisas, ajudar os pobres...

          - Tá vendo?! Esse é o problema da democracia que o brasileiro quer. O brasileiro quer esperar que alguém faça algo por ele, venha e prometa a Nova Canaã, ao invés dele próprio correr atrás de algo e fazer... Típico...

          - Não sei porque aceito trabalhar aqui...

          - Pago seu salário. Por isso você não se demite... Aliás, meu pai já acordou?

          - Sei lá! Seu pai só é inválido de ideias... Não sou babá mental dele.

          - Esses pães vão demorar para assar? O meu auxiliar vai chegar logo...

          - Mais uma expiação, Seu Getúlio?

          - Dona Ofélia, os pães vão demorar para assar?

          - Dependem de muitas variantes... O fogo, o...

          - Tá certo, Ofélia. Eles vão ficar prontos no tempo certo...

          Ofélia e Getúlio não trocaram mais outras conversas. Ela pegou uma parte do jornal para ler, enquanto ele lia outra. Não que as notícias fossem tão diferentes de um dia para o outro. Mas a sensação de “tudo está maravilhoso” ou “tudo está uma merda” que os jornais falavam nunca eram verdades. E Gegê e Dona Ofélia sabiam disso.

          Salomão, pai do nosso Getúlio, estava levantando. Já tinha trocado de roupa, lavado o rosto, e passado aquela adstringente colónia pós-barba. Salomão nunca teve barba, então abusava daquele cheiro característico para dar a impressão de irredutível cuidado com a aparência e a higiene. Ele estava apenas com uma camisa branca, quando a campainha tocou.

           Obviamente era apenas Joaquim, auxiliar. Salomão não sabia, e como estava perto da porta da sala, resolveu ir atender antes do filho. Quando abriu, se deparou com aquele homem de finos traços. Estranhamente, naquele momento, naquele dia, com a mesma colônia pós-barba, Salomão sentiu que algumas coisas estavam querendo sair do lugar... Um lugar onde estavam escondidas, um cofre, um bunker... Era uma sensação razoavelmente agradável.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 4

ADSTRINGÊNCIA


4

           Joaquim/Francisca (como preferir) foi chamado na sala do Chefe. Nosso Getúlio também estava lá.

           - Seu Joaquim, sente-se. Acredito que você já conheça o Getúlio, funcionário antigo aqui do SNI – disse o Chefe.

           Joaquim e Gegê se apresentaram na maior cordialidade possível. Aperto de mão firme, de homem, claro. Mulheres não têm um aperto sólido.

           - O que acontece é o seguinte, Joaquim, – começou Gegê – o SNI está com uma péssima perspectiva de que há algum intruso aqui. Traidor? Talvez... Mas também há a possibilidade de alguém que seja contra o regime de revolução, ou porque mudou de vontade no meio do jogo, ou porque se infiltrou propositalmente aqui.

           - De onde isso surgiu? Agravantes?

           - Ora, Seu Joaquim – engatou o Chefe – o senhor sabe que constantemente fazemos essas investigações corriqueiras. As vezes alguém daqui é amiguinho de algum democrata fanático por eleições...

           - Sim. Mas nunca precisamos de um agente aposentado para resolver isso.

           Nosso Getúlio sorriu.

           - Joaquim, o Estado Militar não anda muito bem. Há uma iminência de movimentos pedindo eleições, o que pode causar uma certa desordem social e econômica no País. Se algum desses do MDB sabem que se passa aqui dentro, e repassa essas informações... Bem... O senhor gostaria de ser presto? – questionou Gegê.

           - Por acaso faço algo ilegal? – falou Joaquim.

           - Joaquim, o caso não é esse, nunca será. O Estado Militar vai acabar cedendo o poder, mas precisamos criar meios para que essas pessoas democráticas em excesso não criem a noção que fizemos muitas coisas erradas. Sabe como é: certo e errado são apenas opiniões. Precisamos apenas dar uma conferida para ver se informações não estão vazando... E se tiver, com quem. Temos uma ideia que isso tudo possa estar acontecendo... É muito incongruente o povo brasileiro querer se organizar para algo...

           O Chefe continuava calado. Nunca entendera porque Gegê nunca esteve no seu lugar. Talvez Gegê fosse bom o bastante apenas em trabalhar...

           Joaquim entendeu os argumentos. De fato, essa repentina organização social que estava em gestação era uma ideia fora do comum. Isso ia ao encontro de tudo que ele/ela já presenciara. Entendeu a preocupação... Não queria que no futuro fosse julgado por algo. Ou qualquer coisa semelhante.

           - Sim, se é para auxiliar o Getúlio nisso, eu auxilio. Mas em que sala ficaremos?

           - Vamos ficar na minha casa. É uma investigação secreta... Pode pegar mal eu voltar aqui e levantar dúvidas. Vai ser mais tranquilo...

           E na outra semana, os dois marcaram de começar a revirar esses esqueletos... Não os do Araguaia. Gente morta normalmente nunca teve esqueleto...

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 3

ADSTRINGÊNCIA


3

          Joaquim era funcionário antigo demais lá no SNI. Não era um funcionário exemplar. Estava há anos, e passara até da idade de se aposentar. Mas como ele não era grande coisa, ninguém do RH (como se houvesse RH numa repartição pública) dava a mínima para um velhote na folha de pagamento Estatal. Quase ninguém conversava com esse senhor, caladão que só.

          Com tamanha indiferença, como alguém podia ser relevante a ponto de ser colocado aqui? Porque Joaquim era um exímio auxiliar. Calado, mas eficiente. Tímido? Vergonha? Que seja... O importante era que quando algum superior a ele precisava de algum trabalho mais penoso (arquivo morto, burocracia, documentos em várias línguas), lá estava Seu Joaquim para resolver.

          Joaquim raramente engatava alguma conversa além do profissional com alguém. Por ser do SNI tinha seu endereço reservado, ou seja: podia evitar que algum estúpido passasse por lá para ver futebol no bar.

          Por ser fechadão (redundante ainda falar assim), ninguém sabia se Joaquim tinha família, era casado, filhos e etc. Ninguém sabia nada dele. E parecia que ele gostava de nutri essa impessoalidade. Ele aprendera no passado que Impessoalidade tinha que ser marca registrada em qualquer trabalho, especialmente estatal. E Joaquim era considerado o errado nessa história...

          Mas Joaquim não ficava nervoso por causa da hipocrisia costumeira do brasileiro funcionário público. Eles não tinham em quem se exemplar. Como querer se livrar da hipocrisia num país em que, quase 100 anos após a escravidão, ainda vai trabalhar se achando não-alforriado?

          Joaquim nunca tivera oportunidade de trabalhar com Gegê. Mas subordinados do Gegê trabalharam com Joaquim. Logo, Joaquim sabia do nosso Getúlio. De acordo com nossas contas, ambos os dois entraram no serviço público juntos, e, se Joaquim já estava na idade de aposentadoria...

          Os dois vão trabalhar juntos ainda. Afinal, o Chefe do SNI pediu para Joaquim auxiliar Gegê, que já estava aposentado, numa pesquisa em torno de um possível traidor dentro do alto escalão do Exército, Governo, vice-versa.

          Mas Joaquim ficou preocupado. Gegê já estava aposentado, e iria trabalhar em casa. E Gegê era bom. O medo de nosso auxiliar era alguém descobrir seu segredo: ele se chamava Francisca.

De: Gustavo Mendes

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Adstringência - 2

ADSTRINGÊNCIA


2

          Gegê foi um ótimo funcionário. Os detalhes de sua atuação no SNI não são lá muito importantes. Afinal, é assunto secreto, correto?! Mas Gegê também estava no Arena. Para ele era indiferente onde estava. Para ele pouco importava muitas coisas. Mas ele gostava do que os arenistas falavam. Ele também acreditava que era muito trololó. Mas, ele pensava “se é para acreditar em algo...”. Ou apenas Gegê acreditava nisso por amor ao pescoço.

          Mas tirando essa faceta política, o nosso Getúlio se dedicou intrinsicamente ao Governo e ao Sistema de Informação. Mais do que um amor a Pátria Canarinho, Gegê passou a nutrir um grande afago por descobrir segredos alheios e técnicas que levavam a isso. Da mesma forma que um físico quântico quer entender o universo, Gegê queria era apenas aperfeiçoar suas técnicas de onipresença.

          Foi mais ou menos nessa época – de início de um amor pelo SNI – que o nosso Getúlio contratou a Ofélia. Bem, a Ofélia era uma senhora gorda, e um pouco negra. Não era negra total, pois teve a sorte de ter um pai branco. Nasceu em São Paulo, filha de empregados comuns. Quando ficou mais velha, junto com a mãe, abriu um restaurante popular, onde fez muito sucesso. Ofélia cozinhava muito bem. E como a comida era boa e barata, lá estavam os comunistas e outros esquerdistas, além de judeus econômicos que não seguiam a dieta kosher, comendo e tagarelando.

          E foi assim que Dona Ofélia começou a se incomodar com esse país. Para ela, o que aquelas pessoas tanto falavam enquanto comiam (falar enquanto come...) devia ser importante, porque elas nem sossegavam o lero durante a refeição. Logo, nossa querida cozinheira passou a prestar atenção.

          Ela pescou informações ali e alado. Entendeu as razões dos comunistas, dos outros esquerdistas, entendeu até as razões dos judeus. E de toda aquela miscelânea, Ofélia entendeu: odiava a ditadura, odiava o Arena. Ela queria uma vida justa para todo mundo.

          Até que o restaurante faliu, sua mãe e seu pai morreram. Ofélia, um arquétipo de Bertoleza, nunca teve tempo para namorar. Apesar das ideias vermelhas, ela precisava e queria guardar o dinheiro. Mas, sem ajuda dos outros, o restaurante fechou. E ela não teve outra opção que não fosse tentar trabalhar em alguma casa de família.

          Como ela tinha uma eloquência razoável, as ex-possíveis-futuras patroas não a quiseram. Era bom evitar problemas com a KGB brasileira. Até que Ofélia, já desistindo e pensando em abrir o abdômen num acesso de esposa-serviçal-whatever de João Romão, foi à casa do nosso Getúlio.

          E lá estavam Getúlio e seu Salomão. Salomão não quis muito que Gegê a contratasse. Mas nosso Getúlio já estava tão cansado de procurar alguém, que aceitou Ofélia.

          E assim a tríade foi levando. Salomão lendo, resmungando, e se sentindo um general civil. Gegê trabalhando e sem tempo para nada. Ofélia cozinhando e tentando conversar com Salomão. E foram anos. E por várias vezes Ofélia estranhava a solidão do Gegê, até entender que ele era do serviço de inteligência e não era possível casar. Até que Ofélia pensou “talvez seja nisso que sejam enfiados os homossexuais”, só que não Ofélia.

          Gegê tinha la suas amantes, suas mulheres. Mas como ele descobriu que era infértil... Pronto. Gegê conseguiu tirar vantagem de alguma coisa da sua vida...

De: Gustavo Mendes

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