terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 4

ADSTRINGÊNCIA


4

           Joaquim/Francisca (como preferir) foi chamado na sala do Chefe. Nosso Getúlio também estava lá.

           - Seu Joaquim, sente-se. Acredito que você já conheça o Getúlio, funcionário antigo aqui do SNI – disse o Chefe.

           Joaquim e Gegê se apresentaram na maior cordialidade possível. Aperto de mão firme, de homem, claro. Mulheres não têm um aperto sólido.

           - O que acontece é o seguinte, Joaquim, – começou Gegê – o SNI está com uma péssima perspectiva de que há algum intruso aqui. Traidor? Talvez... Mas também há a possibilidade de alguém que seja contra o regime de revolução, ou porque mudou de vontade no meio do jogo, ou porque se infiltrou propositalmente aqui.

           - De onde isso surgiu? Agravantes?

           - Ora, Seu Joaquim – engatou o Chefe – o senhor sabe que constantemente fazemos essas investigações corriqueiras. As vezes alguém daqui é amiguinho de algum democrata fanático por eleições...

           - Sim. Mas nunca precisamos de um agente aposentado para resolver isso.

           Nosso Getúlio sorriu.

           - Joaquim, o Estado Militar não anda muito bem. Há uma iminência de movimentos pedindo eleições, o que pode causar uma certa desordem social e econômica no País. Se algum desses do MDB sabem que se passa aqui dentro, e repassa essas informações... Bem... O senhor gostaria de ser presto? – questionou Gegê.

           - Por acaso faço algo ilegal? – falou Joaquim.

           - Joaquim, o caso não é esse, nunca será. O Estado Militar vai acabar cedendo o poder, mas precisamos criar meios para que essas pessoas democráticas em excesso não criem a noção que fizemos muitas coisas erradas. Sabe como é: certo e errado são apenas opiniões. Precisamos apenas dar uma conferida para ver se informações não estão vazando... E se tiver, com quem. Temos uma ideia que isso tudo possa estar acontecendo... É muito incongruente o povo brasileiro querer se organizar para algo...

           O Chefe continuava calado. Nunca entendera porque Gegê nunca esteve no seu lugar. Talvez Gegê fosse bom o bastante apenas em trabalhar...

           Joaquim entendeu os argumentos. De fato, essa repentina organização social que estava em gestação era uma ideia fora do comum. Isso ia ao encontro de tudo que ele/ela já presenciara. Entendeu a preocupação... Não queria que no futuro fosse julgado por algo. Ou qualquer coisa semelhante.

           - Sim, se é para auxiliar o Getúlio nisso, eu auxilio. Mas em que sala ficaremos?

           - Vamos ficar na minha casa. É uma investigação secreta... Pode pegar mal eu voltar aqui e levantar dúvidas. Vai ser mais tranquilo...

           E na outra semana, os dois marcaram de começar a revirar esses esqueletos... Não os do Araguaia. Gente morta normalmente nunca teve esqueleto...

De: Gustavo Mendes

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