ADSTRINGÊNCIA
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- “Queremos votar para Presidente”... por que esse povo não se muda para os Estados Unidos de uma vez? Só tem rico pedindo isso... Rico que pode ir embora daqui! – falou Gegê.
- O senhor anda comendo merda? – retrucou Ofélia, iniciando um diálogo na mesa do café.
- Não Ofélia, eu não como cashrut.
- O senhor é um porco anti-semita, sabia?!
- É redundante falar “porco anti-semita”... Você nem é judia, Ofélia. Você é quase negra!
- Ai Seu Getúlio... E o respeito pelos outros? E o respeito pela vontade de votar?
- Votar... Em quem a senhora votaria, por acaso?
- Oras, eu ia votar no melhor candidato, no qual eu confiasse, que me passasse confiança, que prometesse boas coisas, ajudar os pobres...
- Tá vendo?! Esse é o problema da democracia que o brasileiro quer. O brasileiro quer esperar que alguém faça algo por ele, venha e prometa a Nova Canaã, ao invés dele próprio correr atrás de algo e fazer... Típico...
- Não sei porque aceito trabalhar aqui...
- Pago seu salário. Por isso você não se demite... Aliás, meu pai já acordou?
- Sei lá! Seu pai só é inválido de ideias... Não sou babá mental dele.
- Esses pães vão demorar para assar? O meu auxiliar vai chegar logo...
- Mais uma expiação, Seu Getúlio?
- Dona Ofélia, os pães vão demorar para assar?
- Dependem de muitas variantes... O fogo, o...
- Tá certo, Ofélia. Eles vão ficar prontos no tempo certo...
Ofélia e Getúlio não trocaram mais outras conversas. Ela pegou uma parte do jornal para ler, enquanto ele lia outra. Não que as notícias fossem tão diferentes de um dia para o outro. Mas a sensação de “tudo está maravilhoso” ou “tudo está uma merda” que os jornais falavam nunca eram verdades. E Gegê e Dona Ofélia sabiam disso.
Salomão, pai do nosso Getúlio, estava levantando. Já tinha trocado de roupa, lavado o rosto, e passado aquela adstringente colónia pós-barba. Salomão nunca teve barba, então abusava daquele cheiro característico para dar a impressão de irredutível cuidado com a aparência e a higiene. Ele estava apenas com uma camisa branca, quando a campainha tocou.
De: Gustavo Mendes
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