terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 5

ADSTRINGÊNCIA


5

          - “Queremos votar para Presidente”... por que esse povo não se muda para os Estados Unidos de uma vez? Só tem rico pedindo isso... Rico que pode ir embora daqui! – falou Gegê.

          - O senhor anda comendo merda? – retrucou Ofélia, iniciando um diálogo na mesa do café.

          - Não Ofélia, eu não como cashrut.

          - O senhor é um porco anti-semita, sabia?!

          - É redundante falar “porco anti-semita”... Você nem é judia, Ofélia. Você é quase negra!

          - Ai Seu Getúlio... E o respeito pelos outros? E o respeito pela vontade de votar?

          - Votar... Em quem a senhora votaria, por acaso?

          - Oras, eu ia votar no melhor candidato, no qual eu confiasse, que me passasse confiança, que prometesse boas coisas, ajudar os pobres...

          - Tá vendo?! Esse é o problema da democracia que o brasileiro quer. O brasileiro quer esperar que alguém faça algo por ele, venha e prometa a Nova Canaã, ao invés dele próprio correr atrás de algo e fazer... Típico...

          - Não sei porque aceito trabalhar aqui...

          - Pago seu salário. Por isso você não se demite... Aliás, meu pai já acordou?

          - Sei lá! Seu pai só é inválido de ideias... Não sou babá mental dele.

          - Esses pães vão demorar para assar? O meu auxiliar vai chegar logo...

          - Mais uma expiação, Seu Getúlio?

          - Dona Ofélia, os pães vão demorar para assar?

          - Dependem de muitas variantes... O fogo, o...

          - Tá certo, Ofélia. Eles vão ficar prontos no tempo certo...

          Ofélia e Getúlio não trocaram mais outras conversas. Ela pegou uma parte do jornal para ler, enquanto ele lia outra. Não que as notícias fossem tão diferentes de um dia para o outro. Mas a sensação de “tudo está maravilhoso” ou “tudo está uma merda” que os jornais falavam nunca eram verdades. E Gegê e Dona Ofélia sabiam disso.

          Salomão, pai do nosso Getúlio, estava levantando. Já tinha trocado de roupa, lavado o rosto, e passado aquela adstringente colónia pós-barba. Salomão nunca teve barba, então abusava daquele cheiro característico para dar a impressão de irredutível cuidado com a aparência e a higiene. Ele estava apenas com uma camisa branca, quando a campainha tocou.

           Obviamente era apenas Joaquim, auxiliar. Salomão não sabia, e como estava perto da porta da sala, resolveu ir atender antes do filho. Quando abriu, se deparou com aquele homem de finos traços. Estranhamente, naquele momento, naquele dia, com a mesma colônia pós-barba, Salomão sentiu que algumas coisas estavam querendo sair do lugar... Um lugar onde estavam escondidas, um cofre, um bunker... Era uma sensação razoavelmente agradável.

De: Gustavo Mendes

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