ADSTRINGÊNCIA
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Ofélia e seus clichês. Saiu cheia da grana. Estava feliz. Só não sabia o que fazer com aquilo. Ela passou toda uma vida querendo uma vida melhor, para si e para os outros. Ofélia usava do discurso de estarmos todos ligados para explicar que as discrepâncias sociais merecessem ser diminuídas. Seria normal isso? Ofélia lembrava que alguns dos pseudo-intelectuais que ela encontrava falavam de algum carinha que citava a importância de na juventude defender essas coisas... Será isso Ofélia?
Mas a dúvida era: Ofélia era brasileiramente clichê, ou ela era humanamente clichê?
E depois de toda uma vida. Depois de ter trabalhado tanto. Depois de levar algumas sortes, e muitos azares. E de saber sorrir mais vezes. Depois de aguentar o trabalho numa casa de outra pessoa. Ou seja, de se submeter, como sempre. Ofélia sentiu a vontade de esquecer tudo. A velha ideia que recorre na sua vida de sorrir mais. Mas agora ela queria sorrir de verdade.
Ela sabia que era humilde, e que os “bons profissionais” brasileiros poderiam tirar proveito do dinheiro dela. Não sabia a quem recorrer para pedir ajuda. Ajuda de: onde enfiar essa coisa?! Do que adianta uma pessoa que não sabe o que fazer com dinheiro receber tanto dinheiro? Ah... Que seja Ofélia. Tome uma atitude a sua altura!
E tomou. Pegou o dinheiro, e foi embora. Sim, literalmente embora. Só a vi embarcando num avião. Toda peruada. Uma “nova rica”. Para que viver de lamentação? Ela não era Jeremias. Se preocupar com os outros? Ah... Depois ela ajudava... Era a melhor forma de lavar a consciência pesada. O importante era que ela estava bem, e os outros que tentassem se resolver... Ela se resolvera! Clichê, não?!
Já nosso Getúlio estava entrando no Gabinete do Chefe, no SNI.
- O Relatório.
- Eficiente como sempre, Gegê.
Nosso Getúlio se remexia com esse apelido. Odiava, você sabe. “Como eu pude suportar isso por tanto tempo?”. É, quantas pessoas não morrem sem nem se perguntar isso? Getúlio não era clichê, mas se Ofélia gostasse dele e pudesse falar algo, falaria: “tem coisas na vida que a gente desconhece”. Sem muitas firulas. E, de fato seria isso.
Até agora nosso Getúlio não sabia dosar até onde Joaquim mudara sua forma de ver as coisas. Na realidade, as vezes nem foi o auxiliar. As vezes a própria raiva de ter que trabalhar aposentado. Mandar aposentados trabalharem é um perigo. Durante a raiva, vale dizer, as pessoas se tornam mais ágeis. Sabem ver além. Talvez ela faltasse. No fim de todo o processo de investigação, Gegê já sentia raiva até do Governo, do Estado, das pessoas. “Ah, mas as pessoas não têm culpa...”. Tem sim, pensava, Gegê. Ninguém pediu Contratos Sociais.
O Chefe não resolveu ler o Relatório na hora. Estava ocupado com o Responsável pelo RH (sério que eles acreditavam que tinha RH) para resolver a aposentadoria do Joaquim. E nosso Getúlio deixou o Chefe. Passou em mais algumas salas. Colheu algumas últimas coisas. E, saindo do prédio, percebeu o que deveria fazer no que restava de vida. Quem se importaria né?!
E Salomão, o novo gay. Novo gay? As vezes ele tenha sido a vida inteira. Salomão foi atingido pela ironia do destino. E ele nunca iria saber. Mas era melhor assim. As vezes o Destino prega peças na gente para nos deixar felizes. Isso se o Destino existir. Mas no caso do Salomão, tudo foi muito bem.
Salomão pegou o dinheiro que tinha guardado. Era bastante. Não pensou em usar tudo. Mas resolveu se divertir. Mas não sozinho, porque não tem graça. Pessoas mais novas, da idade dele. Que seja. Nunca seria tarde para começar a sorrir pra vida. Encarar com menos caretice. Sim. Salomão conseguiu diminuir as caretas tatuadas na sua face.
De: Gustavo Mendes
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