ADSTRINGÊNCIA
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Joaquim era funcionário antigo demais lá no SNI. Não era um funcionário exemplar. Estava há anos, e passara até da idade de se aposentar. Mas como ele não era grande coisa, ninguém do RH (como se houvesse RH numa repartição pública) dava a mínima para um velhote na folha de pagamento Estatal. Quase ninguém conversava com esse senhor, caladão que só.
Com tamanha indiferença, como alguém podia ser relevante a ponto de ser colocado aqui? Porque Joaquim era um exímio auxiliar. Calado, mas eficiente. Tímido? Vergonha? Que seja... O importante era que quando algum superior a ele precisava de algum trabalho mais penoso (arquivo morto, burocracia, documentos em várias línguas), lá estava Seu Joaquim para resolver.
Joaquim raramente engatava alguma conversa além do profissional com alguém. Por ser do SNI tinha seu endereço reservado, ou seja: podia evitar que algum estúpido passasse por lá para ver futebol no bar.
Por ser fechadão (redundante ainda falar assim), ninguém sabia se Joaquim tinha família, era casado, filhos e etc. Ninguém sabia nada dele. E parecia que ele gostava de nutri essa impessoalidade. Ele aprendera no passado que Impessoalidade tinha que ser marca registrada em qualquer trabalho, especialmente estatal. E Joaquim era considerado o errado nessa história...
Mas Joaquim não ficava nervoso por causa da hipocrisia costumeira do brasileiro funcionário público. Eles não tinham em quem se exemplar. Como querer se livrar da hipocrisia num país em que, quase 100 anos após a escravidão, ainda vai trabalhar se achando não-alforriado?
Joaquim nunca tivera oportunidade de trabalhar com Gegê. Mas subordinados do Gegê trabalharam com Joaquim. Logo, Joaquim sabia do nosso Getúlio. De acordo com nossas contas, ambos os dois entraram no serviço público juntos, e, se Joaquim já estava na idade de aposentadoria...
Os dois vão trabalhar juntos ainda. Afinal, o Chefe do SNI pediu para Joaquim auxiliar Gegê, que já estava aposentado, numa pesquisa em torno de um possível traidor dentro do alto escalão do Exército, Governo, vice-versa.
Mas Joaquim ficou preocupado. Gegê já estava aposentado, e iria trabalhar em casa. E Gegê era bom. O medo de nosso auxiliar era alguém descobrir seu segredo: ele se chamava Francisca.
De: Gustavo Mendes
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