terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 8

ADSTRINGÊNCIA


8

                O trabalho de Joaquim e Gegê foi indo para lugar nenhum. Gegê começou a se incomodar com isso. Ele já estava aposentado, ele já estava muito bem com a vida. Ele tinha seu dinheiro, tinha o dinheiro do pai. Não que ele aproveitasse isso, afinal, passar uma vida de servidor não lhe ajuda a querer pensar em formas de liberdade mental, a não ser que seu vassalo seja burro o suficiente para permitir que você se incomode.

                Ele tirou um dia para conversar com Joaquim sobre o rumo de tudo aquilo. Não sabia exatamente para onde realmente as coisas estavam indo, e ficava preocupado... “E se aquelas Diretas derem em alguma coisa?”. Gegê pela primeira vez desejou acabar um trabalho não pelo trabalho, mas para se ver livre totalmente do Governo. Talvez tenha se convencido de algumas opiniões de Joaquim.

                Joaquim por outro lado se sentia acuado. Começou a se incomodar com o pai de Gegê. Ele, ou melhor, ela, tinha duvidas de como um homem olha quando tem interesse. Ela lembrava vagamente de como era isso no início da juventude. Sentiu-se naquele momento desejada, claro. Sentia vergonha de se disfarçar, claro. Mas entendia as razões de sua prisão particular. “Sobrevivência, Francisca, é tudo questão de Sobrevivência”, mesmo que ela não entendesse muito bem até onde tudo isso poderia ir. Mas, ficou assustada ao perceber que na realidade Salomão olhava para ela, e sim para ele. Salomão, aquele senhor, na verdade era gay.

                Francisca nunca trabalha com essa ideia de um homem dar em cima dela. Achava tal motivo tão absurdo, irreal, que ela não soube como reagir. Para ela, gays se relacionavam com gays. E gays eram gays, oras. Um terceiro sexo, talvez?! Ela não conseguia imaginar um homem sendo gay, e daí toda essa confusão na cabeça dela. Era tanta confusão, tanta coisa nova, que ela não sabia como reagir quando Seu Salomão a puxava para conversar.

                - Seu filho saiu, Seu Salomão.

                - Eu sei, Joaquim. Na verdade vim aqui falar com você.

                - Pois não?!

                - Casado?

                - Não exatamente.

                - Como é possível exatamente?

                - Digamos que outras coisas funcionem para mim.

                - Ah, sim, claro. Entendo perfeitamente.

                - ...

                - Sabe, ultimamente eu também ando achando que outras coisas funcionem para mim.

                - Sério? É caro?

                - Caro? Não... Vem até barato...

                - Mas?

                - Mas não sei como lidar com isso. É tudo muito complicado.

                - Ah, tudo é muito complicado. Só cachorros transando que é algo simples.

                - É...

                Joaquim/Francisca sabia que fez merda. Não saber se explicar a algumas perguntas foi o bastante para perceber uma mudança de brilho de olhos do pai de seu chefe-no-momento. E um esboço de sorriso. Até que Salomão lhe deu um abraço, e falou “você é um bom rapaz”. Salomão se sentiu estranho. Resolveu mudar a estratégia para resolver seus problemas.

De: Gustavo Mendes

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