terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 7

ADSTRINGÊNCIA


7

                Era teoricamente o primeiro dia de trabalhos conjuntos entre Joaquim e Gegê. Por uma histórica preocupação, nosso Getúlio já havia levado algumas boas pastas até seu apartamento. Enquanto estava na cozinha esperando o pão da Ofélia assar, e enquanto seu pai se atordoava com Joaquim e saía de casa, Joaquim chegava, trocando aquelas cumprimentos breves e insensíveis típicos de homens alfa.

                - Essas pastas você trouxe lá do SNI, Getúlio?

                - Sim, trouxe ontem para cá. Na verdade não são documentos muito sérios, oficiais, empopoados. São apenas relatos pessoais de cada possível traidor.

                - Vamos procurar por um traidor em suas próprias palavras?

                - E como iríamos fazer? Essas coisas de investigação do SNI beiram o absurdo no ponto que tem coisas que são sutis demais para se perceber. Mas, são essas sutilezas, ou indiferenças como alguns incompetentes resolvem chamar, que faz toda a diferença.

                Joaquim percebeu que o trabalho seria longo. Mas depois de perceber isso, se atentou para a utilidade disso.

                - Esse Estado Militar pode acabar...

                - Logo o senhor acha que o SNI acabaria?

                - Provavelmente.

                - O que se está em jogo não é isso. O que está em jogo é quem está mandando... E quem manda precisa saber das coisas, mesmo que faça de conta que não sabe...

                Ofélia continuou esperando pelo pão. Como dito, ela era exímia cozinheira. Seu Salomão gostava de comer bem, o que deixava a Ofélia realizada em querer fazer as coisas para ele, apesar de acha-lo um porre. Mas, dos males os pior: nada melhor do que conquistar a pessoa que você acha mais insuportável possível por um motivo bastante orgânico, animal, instintivo. No fim, quando mais nada havia de importante no mundo, seu estomago roncando de tristeza ou alegria determinaria seu caráter.

                A nossa ex-aprendiz de Bertoleza lia o jornal do Gegê. Ela acompanhava, além dos Jornais, a Televisão. E assim como os Jornais que lia, Ofélia sabia que a Televisão era ainda mais ligada com os milicos. Ofélia era toda clichê, e adorava pensar “uma imagem vale mais que mil palavras” e daí entendia como algumas emissoras de TV conseguiam pagar suas dívidas.

                Por ver televisão conhecia alguns programas de auditório. Por ler jornais, via suas propagandas. E por ouvir conversas de gente inteligente (ou pseudo-intelectuais), sabia algumas coisas. E se animou com uma promoçãozinha lá. Um programa de auditório, responder perguntas, e ganhar algumas boas Barras de Ouro, as quais, sabia Ofélia pelos judeus, “valiam mais que dinheiro porque eram a base do papel” – apesar de ela não entender isso muito bem, confiava. E resolveu tentar a sorte, a boa no caso.

De: Gustavo Mendes

Caso for divulgar em outros meios, seja ético e mantenha a autoria.


Nenhum comentário:

Postar um comentário