terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 6

ADSTRINGÊNCIA


6

                Salomão era um homem razoavelmente sério. Teve uma educação bastante rígida, e talvez por isso, diria a psicanálise, ele possivelmente não tivesse revelado completamente. Tá. Acontece que Salomão também passou essa educação rígida ao nosso Getúlio. O casamento deste senhor foi apenas um acerto social. Afinal, amor em casamento? Amor?

                Salomão cresceu nessa ideia, de que todas as coisas ao redor dele são estáticas. Apenas a racionalidade poderia levar a algum futuro promissor. Muita frescura não era saudável. E Salomão era católico. E acreditava nos santos e na trindade. E ainda falava da frescura...

                Ele não se resumia como uma pessoa feliz. Feliz? Ele estava satisfeito. Ele arrecadou muito dinheiro, teve uma ótima esposa que o acompanhava em vários eventos, um filho muito respeitado no Governo... Por que ele desejaria algo diferente? Não era isso que todo homem tem que buscar? Homem, XY.

                Mas o destino é irônico, Seu Salomão. O senhor até poderia não saber como algumas coisas funcionavam, especialmente nesses sentimentos “de mulher”. O senhor não fui educado para isso, e talvez o senhor devesse culpar seu pai sexista. E talvez o senhor tivesse se apaixonado por uma mulher que seria sua esposa até hoje. Mas acabou conhecendo o Joaquim.

                E por mais impossível e ilógico que poderia parecer, Joaquim era mulher. E nunca saberemos se Salomão, como um bom animal do sexo masculino, percebeu que lá estava uma mulher. Mas o certo é que os olhos de Salomão viram um homem. De início ele apenas sentiu algo razoavelmente agradável, afinal, algumas coisas não dão para controlar. Mas, depois que Joaquim foi recebido por Gegê, Salomão ficou desconcertado e resolveu sair para andar, apesar de ser interrompido na saída do apartamento por uma sorridente idosa feliz.

                - Seu Salomão, resolveu sair. Todo perfumado. Vai passear?

                - Dona Salete! Resolvi dar uma arejada.

                - É, é sempre bom...

                - Dona Salete, se me permite... A senhora é viúva?

                - Não, Seu Salomão. Eu me separei.

                - E por que?

                - Coisas de mulheres, sabe?! Aquela ideia de achar que alguém vai gostar de você de verdade.

                - Uhm... Por que coisas de mulher?

                - Deve ser porque não somos fortes o suficiente para fazermos coisas que homens fazem, e daí nos é dado o dever de ficar com essas coisas...

                - Entendi... E a senhora se casou de novo?

                - Não sou sapatão, Seu Salomão... Se me der licença, preciso entrar em casa.

                Salomão foi andar. Não gostava muito do ar da Capital Federal. Achava uma coisa absurda esperar que as pessoas sobrevivessem naquilo. As vezes ele achava que isso era uma barreira natural contra manifestações populares, o que era lá uma coisa boa. Mas se preocupou com portadores de doenças respiratórias que precisassem ir até o Governo. E ficou pensando nisso, esquecendo o que aconteceu quando viu Joaquim.

                Mas, Salomão era bastante inteligente. E sabia que desejar não pensar era garantia de pensar. Naquele momento sentiu um pouco de medo. Na verdade chegou até a diminuir os passos, alguma coisa não estava certa. Sim, Seu Salomão naquele momento pensou que ele era gay.

De: Gustavo Mendes

Caso for divulgar em outros meios, seja ético e mantenha a autoria.


Nenhum comentário:

Postar um comentário