terça-feira, 20 de março de 2012

Adstringência - 2

ADSTRINGÊNCIA


2

          Gegê foi um ótimo funcionário. Os detalhes de sua atuação no SNI não são lá muito importantes. Afinal, é assunto secreto, correto?! Mas Gegê também estava no Arena. Para ele era indiferente onde estava. Para ele pouco importava muitas coisas. Mas ele gostava do que os arenistas falavam. Ele também acreditava que era muito trololó. Mas, ele pensava “se é para acreditar em algo...”. Ou apenas Gegê acreditava nisso por amor ao pescoço.

          Mas tirando essa faceta política, o nosso Getúlio se dedicou intrinsicamente ao Governo e ao Sistema de Informação. Mais do que um amor a Pátria Canarinho, Gegê passou a nutrir um grande afago por descobrir segredos alheios e técnicas que levavam a isso. Da mesma forma que um físico quântico quer entender o universo, Gegê queria era apenas aperfeiçoar suas técnicas de onipresença.

          Foi mais ou menos nessa época – de início de um amor pelo SNI – que o nosso Getúlio contratou a Ofélia. Bem, a Ofélia era uma senhora gorda, e um pouco negra. Não era negra total, pois teve a sorte de ter um pai branco. Nasceu em São Paulo, filha de empregados comuns. Quando ficou mais velha, junto com a mãe, abriu um restaurante popular, onde fez muito sucesso. Ofélia cozinhava muito bem. E como a comida era boa e barata, lá estavam os comunistas e outros esquerdistas, além de judeus econômicos que não seguiam a dieta kosher, comendo e tagarelando.

          E foi assim que Dona Ofélia começou a se incomodar com esse país. Para ela, o que aquelas pessoas tanto falavam enquanto comiam (falar enquanto come...) devia ser importante, porque elas nem sossegavam o lero durante a refeição. Logo, nossa querida cozinheira passou a prestar atenção.

          Ela pescou informações ali e alado. Entendeu as razões dos comunistas, dos outros esquerdistas, entendeu até as razões dos judeus. E de toda aquela miscelânea, Ofélia entendeu: odiava a ditadura, odiava o Arena. Ela queria uma vida justa para todo mundo.

          Até que o restaurante faliu, sua mãe e seu pai morreram. Ofélia, um arquétipo de Bertoleza, nunca teve tempo para namorar. Apesar das ideias vermelhas, ela precisava e queria guardar o dinheiro. Mas, sem ajuda dos outros, o restaurante fechou. E ela não teve outra opção que não fosse tentar trabalhar em alguma casa de família.

          Como ela tinha uma eloquência razoável, as ex-possíveis-futuras patroas não a quiseram. Era bom evitar problemas com a KGB brasileira. Até que Ofélia, já desistindo e pensando em abrir o abdômen num acesso de esposa-serviçal-whatever de João Romão, foi à casa do nosso Getúlio.

          E lá estavam Getúlio e seu Salomão. Salomão não quis muito que Gegê a contratasse. Mas nosso Getúlio já estava tão cansado de procurar alguém, que aceitou Ofélia.

          E assim a tríade foi levando. Salomão lendo, resmungando, e se sentindo um general civil. Gegê trabalhando e sem tempo para nada. Ofélia cozinhando e tentando conversar com Salomão. E foram anos. E por várias vezes Ofélia estranhava a solidão do Gegê, até entender que ele era do serviço de inteligência e não era possível casar. Até que Ofélia pensou “talvez seja nisso que sejam enfiados os homossexuais”, só que não Ofélia.

          Gegê tinha la suas amantes, suas mulheres. Mas como ele descobriu que era infértil... Pronto. Gegê conseguiu tirar vantagem de alguma coisa da sua vida...

De: Gustavo Mendes

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